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Integrantes do INCT Trabalho participam da Enciclopédia Brasileira de Ciências Sociais

Integrantes do INCT Trabalho participam da Enciclopédia Brasileira de Ciências Sociais

A Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) lançou, durante seu 50º Encontro Anual, a primeira Enciclopédia Brasileira de Ciências Sociais. A apresentação ocorreu em sessão especial realizada no dia 9 de outubro, no Auditório da Adunicamp, sob a coordenação de Mario Medeiros, da ANPOCS e da Unicamp. Participaram como expositores Adriano Codato, da Universidade Federal do Paraná, Rogério Arantes, da Universidade de São Paulo, e Emilia Pietrafesa de Godoi, da Unicamp.

O lançamento marcou as comemorações dos 50 anos da ANPOCS e projetou uma iniciativa voltada ao futuro das Ciências Sociais no país. Em seu formato inicial, a Enciclopédia reúne 50 verbetes assinados por especialistas e pretende constituir uma obra de referência para a pesquisa acadêmica, o ensino, o jornalismo e o debate público. Digital e de acesso aberto, contempla as áreas de Sociologia, Ciência Política, Antropologia e Metodologia das Ciências Sociais, conferindo atenção especial à produção intelectual brasileira e latino-americana.

Trata-se de um projeto necessário e ousado. Necessário porque responde à expansão de informações disponíveis em ambientes digitais sem mecanismos equivalentes de curadoria e responsabilização intelectual. Ousado porque propõe integrar conceitos, temas, métodos, instituições e trajetórias intelectuais em uma arquitetura comum, construída segundo um planejamento editorial de longo prazo. Diferentemente de plataformas abertas à edição anônima ou de conteúdos produzidos automaticamente, cada verbete possui autoria identificada, passa por avaliação especializada e deverá ser atualizado periodicamente.

Os verbetes são encomendados a pesquisadores reconhecidos pela produção acumulada sobre cada assunto. Além da revisão por pares, a Enciclopédia prevê o arquivamento e a identificação das diferentes versões, a atribuição de DOI próprio a cada entrada e referências padronizadas em diversos formatos. O projeto começa com 50 verbetes, mas deverá crescer progressivamente, orientado por um plano de cobertura das diferentes áreas e por cinco modalidades de textos: conceituais, temáticos, biográficos, metodológicos e institucionais.

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) está significativamente representado nesse núcleo inaugural. Integrantes de sua coordenação, de seu Comitê Gestor, do Comitê Assessor e de seus Eixos Temáticos assinam cinco verbetes dedicados a conceitos fundamentais para a compreensão do trabalho, das desigualdades e das relações de poder na sociedade contemporânea.

Roberto Véras de Oliveira e Maria Aparecida Bridi, respectivamente coordenador e vice-coordenadora do INCT Trabalho, assinam o verbete “Capitalismo de plataforma”. O texto discute a crescente centralidade das plataformas digitais na organização da economia, dos mercados e do trabalho. Longe de serem apenas ferramentas neutras de intermediação, empresas como Google, Amazon, Meta e Uber combinam extração massiva de dados, gestão algorítmica, efeitos de rede e controle de ecossistemas digitais. O verbete examina como esses mecanismos transferem custos e riscos aos trabalhadores, favorecem a concentração econômica e ampliam o poder das empresas-plataforma, com atenção especial às configurações assumidas no Brasil e na América Latina.

Adalberto Cardoso, membro do Comitê Gestor do Instituto, é o autor do verbete “Cidadania”. O texto apresenta a cidadania simultaneamente como pertencimento, estatuto jurídico, conjunto de direitos, participação política e expectativa de reconhecimento social. Ao reconstruir sua trajetória histórica, mostra que a cidadania não nasceu universal: constituiu inicialmente um privilégio restrito, do qual amplos grupos foram excluídos. Sua ampliação ocorreu por meio de conflitos e lutas sociais, permanecendo marcada por desigualdades de classe, gênero, raça, propriedade, nacionalidade, trabalho e pertencimento religioso.

O verbete “Informalidade” foi elaborado por Jacob Carlos Lima, integrante do Comitê Assessor do INCT Trabalho. O autor recupera as controvérsias que acompanham o conceito desde sua formulação, destacando a variedade de situações econômicas e laborais por ele abrangidas. O texto acompanha as mudanças ocorridas nos últimos 50 anos: das interpretações vinculadas à modernização e à dependência às análises sobre funcionalidade para o capital, globalização, desregulamentação, precarização e, mais recentemente, plataformização digital. Também incorpora perspectivas socioantropológicas voltadas às formas pelas quais os trabalhadores experimentam e interpretam a informalidade em sua vida cotidiana.

Andréia Galvão, integrante do Comitê Gestor, e Patrícia Vieira Trópia, membro da coordenação do Eixo 7, assinam o verbete “Sindicalismo”. As autoras abordam a principal e mais longeva forma de organização coletiva e de luta por direitos trabalhistas nas sociedades capitalistas. O verbete apresenta definições, formas organizativas, correntes teóricas, metodologias de pesquisa e características históricas do sindicalismo brasileiro, além de discutir sua crise e os desafios contemporâneos para a revitalização sindical.

José Ricardo Ramalho, também membro do Comitê Gestor do INCT Trabalho, é o autor do verbete “Trabalho”. O texto analisa o caráter histórico e plural dessa categoria, cuja importância se ampliou com o capitalismo industrial e suas transformações produtivas e tecnológicas. O trabalho é compreendido para além do emprego assalariado, abrangendo a reprodução social, o cuidado, o trabalho doméstico, as atividades digitais, imateriais e não assalariadas. É apresentado como fenômeno que estrutura relações de poder, produz desigualdades e conforma identidades individuais e coletivas.

A presença de integrantes do INCT Trabalho nos primeiros 50 verbetes evidencia a contribuição do Instituto para a produção e a difusão de conhecimento socialmente relevante. Ao participar desse empreendimento coletivo da ANPOCS, o INCT Trabalho ajuda a consolidar uma obra de referência capaz de articular rigor acadêmico, acesso público e atenção às grandes questões que atravessam a sociedade brasileira.

A Enciclopédia Brasileira de Ciências Sociais pode ser acessada gratuitamente em sua plataforma digital e também está disponível na Biblioteca do site do INCT Trabalho, na seção Dicionários e Tratados.

Pesquisadores do INCT-Trabalho integram obra latino-americana sobre capitalismo de plataformas

Pesquisadores do INCT-Trabalho integram obra latino-americana sobre capitalismo de plataformas

O livro Debates y miradas sobre el capitalismo de plataformas en América Latina reúne autores e autoras de diferentes países da região em torno das transformações associadas à expansão das plataformas digitais no mundo do trabalho. A publicação articula pesquisas empíricas e reflexões teóricas sobre temas como financiarização, gestão e controle algorítmico, ação coletiva, gênero, desigualdades e regulação.

Foto: José Tapia / El Colegio de México

Entre os pesquisadores vinculados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho) que participam da obra estão Minor Mora Salas, Maria Aparecida Bridi, Andrea Delfino e Roberto Véras de Oliveira, com contribuições na coordenação e na autoria da publicação. Minor Mora Salas e Maria Aparecida Bridi estão entre os co-coordenadores da obra, ao lado de Carlos Alba. A participação desses pesquisadores amplia a interlocução entre o INCT-Trabalho e a produção latino-americana sobre o capitalismo de plataformas.

O livro foi apresentado em evento presencial de lançamento, transmitido também pelo YouTube, com a participação de parte dos organizadores e autores. Durante o encontro, Minor Mora Salas atuou como mediador e conduziu também a apresentação do bloco da obra organizado por Roberto Véras de Oliveira.

Plataformas, poder e desigualdades na América Latina

Durante o lançamento, Minor Mora Salas destacou que as empresas de plataforma não devem ser compreendidas apenas como intermediárias tecnológicas, mas como novas formas de organização empresarial e infraestruturas de poder. Segundo o pesquisador, o capitalismo de plataformas se expande na América Latina sobre um terreno já marcado por informalidade, desemprego e desigualdades, contexto no qual a promessa de "flexibilidade" convive com estratégias de sobrevivência e processos de despossessão.

Mora Salas também introduziu discussões sobre temas emergentes abordados na publicação, entre eles migração, gênero e a expansão do modelo de plataformas para diferentes setores econômicos.

Maria Aparecida Bridi, também co-coordenadora da obra, apresentou a seção dedicada à ação coletiva e ao sindicalismo. A pesquisadora chamou atenção para uma das contradições do trabalho em plataformas: embora organizado de maneira individualizada e frequentemente associado ao discurso do empreendedorismo, permanece submetido a formas intensas de gestão e controle algorítmico.

Segundo Bridi, situações como bloqueios arbitrários, falta de transparência e exposição a riscos também contribuem para impulsionar novas formas de organização e resistência dos trabalhadores. Durante o lançamento, a pesquisadora apresentou ainda o INCT-Trabalho à comunidade acadêmica latino-americana e convidou os participantes a acompanhar os seminários teóricos promovidos pelo Instituto.

Tempo de trabalho, gestão algorítmica e "autogestão subordinada"

A relação entre tecnologia, controle e tempo de trabalho aparece na contribuição de Andrea Delfino. A pesquisadora analisa a reestruturação do tempo de trabalho a partir do diálogo entre a teoria do valor-trabalho e a Sociologia do Trabalho. Em sua análise, a gestão algorítmica promove uma redução acentuada da porosidade do tempo de trabalho, ao mesmo tempo em que transfere aos trabalhadores os custos dos períodos de espera não remunerados.

Foto: José Tapia / El Colegio de México

Delfino aborda ainda as jornadas prolongadas e o descompasso entre o tempo em que o trabalhador permanece à disposição da plataforma e aquele que é efetivamente remunerado.

O bloco organizado por Roberto Véras de Oliveira, apresentado durante o lançamento por Minor Mora Salas, concentrou-se nas questões relacionadas à gestão e ao controle algorítmico. Entre as contribuições de Véras está a noção de "autogestão subordinada", formulada para expressar a contradição vivenciada por trabalhadores formalmente apresentados como autônomos, mas cujas possibilidades de decisão, ritmos e condições de trabalho são delimitados e monitorados pelos sistemas algorítmicos das plataformas.

Gênero e trabalho por plataformas

A dimensão latino-americana da publicação também aparece nas pesquisas sobre os efeitos diferenciados do trabalho plataformizado e suas relações com gênero, reprodução social e violência.

Foto: José Tapia / El Colegio de México

Rosario Aparício e Carlos Alba analisam o trabalho de entregas por aplicativos na Cidade do México sob a perspectiva de gênero. O estudo indica que a chamada flexibilidade proporcionada pelas plataformas não produz os mesmos efeitos para homens e mulheres. Entre mulheres com filhos ou responsabilidades de cuidado, as interrupções da jornada e a necessidade de conciliar trabalho remunerado e reprodução social resultam em maior precarização e rendimentos menores.

Também a partir da Cidade do México, Susana Rosales apresentou o estudo "Violência 4.0", centrado na experiência do coletivo Ni una repartidora menos. A pesquisa identifica diferentes manifestações de violência de gênero enfrentadas pelas entregadoras em distintos momentos do trabalho: durante a espera e a coleta dos pedidos, no deslocamento pelas ruas e no contato final com os clientes.

Foto: José Tapia / El Colegio de México

A análise aborda situações que vão da hostilidade em estabelecimentos e no ambiente de trabalho à violência viária, ao assédio e a outras formas de agressão, relacionando essas experiências às desigualdades de gênero presentes tanto na organização das plataformas quanto no espaço urbano.

Estratégias dos trabalhadores diante do controle algorítmico

Outras contribuições investigam como os próprios trabalhadores desenvolvem estratégias para lidar com as formas de gestão e controle impostas pelas plataformas.

Foto: José Tapia / El Colegio de México

Aurora Rebeca de la Rosa, a partir de uma investigação etnográfica com motoristas da Uber na Cidade do México, trabalha com o conceito de "algo-activismo" para analisar como os trabalhadores aprendem as lógicas e as brechas dos algoritmos e procuram reconfigurar, individual e coletivamente, suas jornadas.

A pesquisa acompanha a formação de redes virtuais, especialmente em grupos de WhatsApp e Facebook, e sua articulação em diferentes iniciativas, que incluem compras coletivas, reivindicações relacionadas ao trânsito e formas de organização sindical.

Foto: José Tapia / El Colegio de México

José Ceron, por sua vez, apresenta uma pesquisa etnográfica realizada a partir da experiência como trabalhador incógnito em armazéns da Amazon no México. O estudo analisa mecanismos de vigilância, avaliação por métricas e gamificação do desempenho, nos quais erros podem gerar penalizações e repercutir sobre a permanência dos trabalhadores no emprego.

A pesquisa também problematiza a narrativa de uma logística amplamente automatizada. A partir da experiência nos armazéns mexicanos, Ceron destaca a dependência persistente do trabalho humano e utiliza a noção de "trabalho pseudopolivalente" para caracterizar atividades nas quais os trabalhadores precisam responder continuamente às exigências e aos gargalos do processo logístico.

Uma agenda latino-americana de pesquisa

Ao reunir autores e autoras de diferentes países, Debates y miradas sobre el capitalismo de plataformas en América Latina apresenta o capitalismo de plataformas como um fenômeno que ultrapassa a dimensão estritamente tecnológica. Os estudos abordam suas articulações com desigualdades históricas, formas de gestão e controle, divisão sexual do trabalho, ação coletiva e regulação, evidenciando também as características específicas assumidas por essas transformações nas sociedades latino-americanas.

A participação de pesquisadores vinculados ao INCT-Trabalho na coordenação e na autoria da publicação aproxima as pesquisas desenvolvidas no Instituto de uma agenda mais ampla de interlocução latino-americana sobre as transformações do trabalho contemporâneo.

Sessão “Conversa com Autor” da ANPOCS homenageia Adalberto Cardoso e destaca nova agenda para a Sociologia do Trabalho

Sessão “Conversa com Autor” da ANPOCS homenageia Adalberto Cardoso e destaca nova agenda para a Sociologia do Trabalho

A sessão “Conversa com Autor”, realizada em 8 de outubro, no Auditório da Adunicamp, homenageou a trajetória intelectual de Adalberto Cardoso, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e membro do Comitê Gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho). A atividade integrou a programação do 50º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).

Tradicional na programação da ANPOCS, a “Conversa com Autor/a” constitui um espaço de reconhecimento e debate sobre as obras e trajetórias de pesquisadores e pesquisadoras de destaque nas Ciências Sociais brasileiras. Em 2026, Adalberto Cardoso esteve entre os três autores escolhidos para essas sessões especiais, ao lado de Miriam Grossi e Adrian Gurza Lavalle. A homenagem ganha especial importância em uma edição comemorativa do cinquentenário da Associação, ao situar a obra do autor entre as contribuições relevantes para a compreensão das transformações da sociedade brasileira.

A sessão foi apresentada e ancorada por Alexander Couto Englander, bolsista de Pós-Doutorado Júnior do Eixo Temático 6 do INCT Trabalho, dedicado às relações entre trabalho, crise ambiental e transição energética. Em sua intervenção, Alexander reconstituiu os principais momentos da produção de Adalberto Cardoso, chamando atenção para a amplitude temática, a consistência empírica e a articulação entre Sociologia do Trabalho, Sociologia Política e Sociologia Histórica que caracterizam sua obra.

A apresentação começou pelas pesquisas sobre o sindicalismo brasileiro no contexto da redemocratização. Alexander lembrou da pesquisa de mestrado de Adalberto sobre os petroleiros de Paulínia, na qual o autor questionou o modo como o individualismo metodológico explica a ação social e evidenciou a força dos sentimentos de pertencimento, identidade e solidariedade coletiva. Também mencionou a tese de doutorado do autor, que deu origem ao livro A trama da modernidade: pragmatismo sindical e democratização no Brasil (1999), na qual foi feita a análise da tensão entre o sindicalismo combativo da CUT e o chamado “sindicalismo de resultados”, que ganhou espaço no momento da Constituinte construindo uma identidade “anti-CUT”. Pouco depois, no início da década de 2000, Adalberto criticou a acomodação pragmática das lideranças da CUT à estrutura institucional consolidada depois de 1988, sem deixar de destacar que tal postura defensiva ocorria em meio à década neoliberal, que desencadeou uma crise do sindicalismo brasileiro.

Outro momento importante da exposição tratou das pesquisas desenvolvidas nos anos 1990 e 2000 sobre a crise do trabalho, a desindustrialização, a flexibilização das relações laborais e a fragilização do sindicalismo. Alexander ressaltou que Adalberto confrontou empiricamente a tese de que a legislação trabalhista brasileira seria excessivamente rígida e constituiria o principal obstáculo ao crescimento, à produtividade e à competitividade econômica. Obras como Sindicatos, trabalhadores e a coqueluche neoliberal: a era Vargas acabou?  (1999), A década neoliberal e a crise dos sindicatos no Brasil (2003) e As normas e os fatos: desenho e efetividade das instituições de regulação de trabalho no Brasil (2007) tornaram-se referências nesse debate.

A apresentação abordou ainda o livro A construção da sociedade do trabalho no Brasil (2010), no qual Adalberto mobiliza uma perspectiva histórica para interpretar a persistência secular das desigualdades. Alexander destacou, nesse percurso, os estudos posteriores sobre juventude, informalidade, classes médias, bolsonarismo e negociação coletiva. E concluiu que, nesse movimento contínuo de adensamento intelectual, a obra de Adalberto Cardoso proporciona um mapeamento cognitivo do mundo do trabalho no Brasil. A composição desse conjunto revela uma sociologia política do trabalho atenta às relações entre mercado de trabalho, instituições, desigualdades, identidades de classe e disputas políticas — que ganhou nova camada de complexidade em seus trabalhos mais recentes, por meio da mobilização das categorias de “ética burguesa do trabalho” (individualista e meritocrática) e “ética do trabalho assalariado” (coletivamente organizado, fundamentada na solidariedade de classe). A categoria de classe social permanece central porque, apesar das promessas de uma sociedade pós-industrial, o emprego assalariado — ou suas formas dissimuladas sob a linguagem do empreendedorismo — continua delimitando, desigualmente, o horizonte das oportunidades de vida da maioria da população.

Em sua fala, Adalberto Cardoso apresentou uma agenda intelectual em desenvolvimento, sintetizada na proposta de uma “Sociologia Ecológica do Trabalho”. Seu argumento central é a de que a crise climática não deve ser tratada apenas como uma variável externa que afeta determinados empregos, setores ou ocupações. Calor extremo, secas, incêndios, enchentes, poluição e colapso das infraestruturas penetram diretamente os processos de trabalho e as condições cotidianas de reprodução da força de trabalho.

Adalberto propôs, assim, compreender a crise climática contemporânea como uma “crise ecológica do trabalho”. Essa crise ocorre quando perturbações ambientais associadas à dinâmica da acumulação capitalista afetam simultaneamente a capacidade de trabalhar e as condições materiais e sociais necessárias à reprodução das capacidades laborais. Seus efeitos incluem a redução ou reorganização da capacidade física de trabalho, a elevação dos custos familiares com água, energia, alimentação, transporte, moradia e saúde e a redistribuição desses custos entre empresas, Estado, famílias e comunidades.

A desigualdade ocupa lugar decisivo nessa formulação. Um mesmo evento climático produz consequências distintas conforme o regime de emprego, a renda, o gênero, a raça, o território e o acesso a direitos. Trabalhadores formais podem contar, ainda que parcialmente, com pausas, fiscalização, equipamentos e compensações. Para trabalhadores informais, autônomos ou remunerados por tarefa, interromper uma atividade perigosa pode representar a perda da renda indispensável à sobrevivência.

Três mediações foram destacadas por Adalberto: corpo, infraestrutura e cuidado. O corpo constitui o primeiro lugar em que a instabilidade climática se converte em fadiga, doença, acidente ou incapacidade. As infraestruturas de água, energia, transporte, saneamento, saúde e comunicação condicionam tanto o exercício do trabalho quanto a reprodução da vida. O cuidado, predominantemente realizado pelas mulheres, absorve parte considerável dos custos das catástrofes, das doenças e da interrupção dos serviços públicos.

O autor ilustrou sua proposta com situações brasileiras: a exposição de motoristas e entregadores de plataformas ao calor e às tempestades; os efeitos das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul sobre empregos, moradias, deslocamentos e redes de cuidado; e as consequências das secas e dos incêndios na Amazônia e no Pantanal para povos indígenas, ribeirinhos, pescadores e pequenos produtores.

Ao incorporar as resistências e as formas de organização coletiva à própria análise da crise, Adalberto mostrou que trabalhadores e comunidades não são apenas vítimas dos danos ambientais. Eles sustentam, reparam e regeneram as condições da vida, podendo transformar essa posição em ação coletiva. Justiça climática, ecologismo dos pobres e transição justa aparecem, desse modo, como formas de disputar quem deverá arcar com os custos da transformação ecológica. A homenagem promovida pela ANPOCS celebrou, portanto, não apenas uma trajetória intelectual consolidada, mas também a abertura de uma agenda inovadora para a Sociologia do Trabalho.

Ao incorporar as resistências e as formas de organização coletiva à análise da crise, Adalberto mostrou que trabalhadores e comunidades não são apenas vítimas dos danos ambientais. São também sujeitos que sustentam, reparam e regeneram cotidianamente as condições da vida e que podem transformar essa posição em mobilização e ação coletiva. Justiça climática, ecologismo dos pobres e transição justa aparecem, desse modo, como campos de disputa em torno de quem deverá arcar com os custos sociais e ambientais da transformação ecológica e de quem participará da definição de seus rumos.

A reflexão apresentada na sessão dialoga diretamente com uma das frentes centrais do INCT Trabalho. A crise climática e a transição energética, analisadas pelo prisma de seus condicionamentos e de suas consequências para o trabalho, constituem o núcleo do Eixo Temático 6 do Instituto. Ao articular processo de trabalho, reprodução social, desigualdades, condições ecológicas, ação coletiva e políticas de transição, essa perspectiva ajuda a construir um programa de investigação capaz de compreender como a crise ambiental reorganiza o trabalho, redistribui riscos e custos entre diferentes grupos sociais e produz novas disputas por direitos, proteção social e justiça climática.

A homenagem promovida pela ANPOCS celebrou, portanto, não apenas uma trajetória intelectual consolidada e decisiva para a Sociologia do Trabalho brasileira. Suas reflexões constituem um pilar fundamental do Eixo 6 e do esforço coletivo do INCT Trabalho para construir uma perspectiva interdisciplinar e socialmente comprometida sobre as relações entre trabalho, crise climática, transição energética, inclusão, equidade e sustentabilidade.

Seminário Internacional na UAA fortalece cooperação latino-americana em pesquisas sobre trabalho.

Seminário Internacional na UAA fortalece cooperação latino-americana em pesquisas sobre trabalho.

Encontro reuniu pesquisadores do Brasil, México, Argentina e Chile para debater juventude, plataformas digitais, reformas laborais e novas agendas de investigação sobre o trabalho na América Latina.

A Universidad Autónoma de Aguascalientes (UAA), no México, sediou, em 1º de setembro de 2026, o Seminário Internacional “Trabajo en la encrucijada: jóvenes, plataformas y transformaciones laborales en América Latina”. Concebido como um espaço de intercâmbio de projetos e resultados de pesquisa, o encontro reuniu pesquisadores de diferentes instituições e países latino-americanos, combinando lançamento e discussão de livros com a apresentação de investigações em andamento.

Livros e pesquisas sobre o trabalho na América Latina

A primeira parte do Seminário foi dedicada à apresentação de quatro publicações recentes, todas relacionadas às transformações contemporâneas do trabalho e à construção de uma perspectiva latino-americana de análise.

Rosario Aparicio e Susana Rosales apresentaram Debates y miradas sobre el capitalismo de plataformas en América Latina, publicado por El Colegio de México.

Na sequência, Roberto Véras de Oliveira, Maria Aparecida Bridi, Andrea Delfino e Armida García apresentaram o livro resultante do projeto Platlaboral, Relaciones de trabajo en plataformas digitales en contextos periféricos: ¿factor de reestandarización en América Latina?. Andrea Delfino apresentou ainda Plataformas, algoritmos y trabajo a destajo.

Fechando esse bloco, Roberto Véras, Maria Aparecida Bridi e Octavio Maza apresentaram Diálogos críticos: el pensamiento extranjero y la sociología del trabajo en América Latina, publicação dedicada a discutir os modos pelos quais a Sociologia do Trabalho latino-americana dialoga com autores e tradições intelectuais produzidos em outros contextos. O bloco terminou com um período ampliado de perguntas e comentários, favorecendo a discussão conjunta das obras.

Pesquisas em andamento e construção de uma agenda comum

A segunda parte assumiu a forma de uma oficina de trabalho. Em vez de concentrar-se apenas em resultados concluídos, os participantes apresentaram projetos em andamento, problemas de pesquisa e hipóteses, abrindo espaço para comentários e para a identificação de possibilidades de cooperação.

Um primeiro conjunto de exposições abordou trabalho e juventude, pesquisas sobre trabalhadores de cinemas, temas emergentes dos estudos do trabalho e as relações entre plataformas digitais e reforma laboral no México. Em seguida, foram discutidas pesquisas sobre tolerância às práticas algorítmicas, implementação da reforma laboral no trabalho em plataformas e relações entre gênero e plataformas digitais.

O formato adotado favoreceu um diálogo transversal entre pesquisas que, embora desenvolvidas em diferentes contextos nacionais, enfrentam problemas comuns: precarização, novas tecnologias, gestão algorítmica, mudanças na regulação laboral, desigualdades e transformações nas trajetórias dos trabalhadores.

INCT Trabalho e cooperação regional

O último bloco ampliou essa perspectiva de articulação internacional. Roberto Véras de Oliveira apresentou o INCT Trabalho – Estratégias de Emancipação, destacando sua proposta de constituição de uma rede de pesquisa sobre as transformações do trabalho e as possibilidades de construção de alternativas de proteção, organização e emancipação dos trabalhadores.

Na sequência, Maria Aparecida Bridi e Andrea Delfino apresentaram o projeto comparativo sobre trabalhadores de entrega na América Latina. Delfino expôs também pesquisas desenvolvidas em Rosário e Santa Fé, na Argentina, enquanto Dasten Julián apresentou investigações realizadas no Chile.

Mais do que uma sequência de apresentações, o Seminário buscou aproximar grupos e projetos que vêm investigando problemas convergentes em diferentes países. A programação reservou, por isso, períodos significativos para debate em todos os blocos e encerrou-se com uma sessão específica de intercâmbio sobre agendas de pesquisa.

Realizado às vésperas do XI Congresso Internacional da ALAST, em Guadalajara, o encontro de Aguascalientes contribuiu para aprofundar relações de cooperação já existentes e identificar novas possibilidades de investigação comparativa. Ao aproximar pesquisadores do México, Brasil, Argentina e Chile, o Seminário reforçou uma perspectiva fundamental para os estudos contemporâneos do trabalho: compreender processos globais, como digitalização e plataformização, a partir das condições históricas, institucionais e sociais específicas da América Latina e, ao mesmo tempo, construir uma agenda de pesquisa produzida em diálogo entre os próprios países da região.

Presenças do INCT Trabalho no Encontro Nacional da ANPOCS

Presenças do INCT Trabalho no Encontro Nacional da ANPOCS

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) teve presença expressiva na edição presencial do Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), realizado entre os dias 7 e 9 de outubro de 2026. Pesquisadores, pesquisadoras e estudantes vinculados ao Comitê Gestor, ao Comitê Assessor e aos diversos Eixos Temáticos do Instituto participaram de grupos de trabalho, mesas-redondas, sessões especiais e outras atividades da programação.

Fundada em 1977, a ANPOCS reúne mais de uma centena de programas de pós-graduação e centros de pesquisa em antropologia, ciência política, relações internacionais e sociologia. Seus associados congregam cerca de 1.200 docentes e pesquisadores, além de milhares de estudantes de mestrado e doutorado de todas as regiões do país. Seus encontros anuais, marcados pelo diálogo interdisciplinar, mobilizam aproximadamente dois mil participantes e constituem um dos principais espaços de intercâmbio das Ciências Sociais brasileiras.

A edição de 2026 adquiriu significado especial por integrar as comemorações dos 50 anos da ANPOCS. A programação revisitou a trajetória da Associação e as transformações ocorridas nas Ciências Sociais brasileiras nas últimas cinco décadas, ao mesmo tempo que lançou iniciativas voltadas ao futuro, entre elas a primeira Enciclopédia Brasileira de Ciências Sociais.

A participação do INCT Trabalho ocorreu de maneira transversal. Um dos principais espaços foi o GT 68 — “Trabalho e ação coletiva em um mundo em transformação”, coordenado por Andréia Galvão, integrante do Comitê Gestor do Instituto, e Mauricio Rombaldi, pesquisador integrado ao Eixo 2. O grupo discutiu transformações tecnológicas e produtivas, novas formas de inserção laboral, desproteção social, desigualdades e desafios para a ação coletiva.

Na primeira sessão do GT, dedicada às novas tecnologias e às reconfigurações do trabalho contemporâneo, Mauricio Rombaldi atuou como coordenador e Roberto Véras de Oliveira, coordenador do INCT Trabalho, como debatedor.

A segunda sessão, sobre transformações produtivas, condições de trabalho e proteção social, foi coordenada por José Dari Krein, membro do Comitê Gestor, e teve como debatedora Maria Aparecida da Cruz Bridi, vice-coordenadora do Instituto. Andréia Galvão e Mauricio Rombaldi também coordenaram e debateram a terceira sessão, voltada ao trabalho como espaço de produção de identidades e experiências.

 

Na quarta sessão, sobre ação coletiva e disputas por direitos, Patrícia Vieira Trópia, integrante da coordenação do Eixo 7, atuou como coordenadora, enquanto Andréia Galvão participou como debatedora.

O trabalho digital recebeu atenção destacada em duas mesas-redondas. A MR47 — “Trabalho digital em perspectiva: desafios analíticos e inovações metodológicas nas Ciências Sociais” — foi coordenada por Bárbara Castro, integrante do Eixo 5, e debatida por José Dari Krein. A atividade contou ainda com exposições de Daniela Ribeiro de Oliveira, Monise Fernandes Picanço e Marcel Maggion Maia.

A MR42 — “Plataformização, zonas cinzentas e novas fronteiras do trabalho: diálogos Norte-Sul” — foi coordenada por Maria Aparecida Bridi e debatida por Jacob Carlos Lima, membro do Comitê Assessor do INCT Trabalho. Participaram como expositores Cibele Saliba Rizek, Roberto Véras de Oliveira e Mario Henrique Guedes Ladosky, este pesquisador do Eixo 5. A mesa promoveu um diálogo sobre informalidade, subordinação, regulação e novas fronteiras do trabalho plataformizado.

 

Outro destaque foi a “Conversa com Autor” dedicada a Adalberto Cardoso, integrante do Comitê Gestor do Instituto. A apresentação ficou a cargo de Alexander David Anton Couto Englander, bolsista de pós-doutorado júnior vinculado ao Eixo 6.

A presença do Instituto alcançou também a Sessão Especial “Estado, política e classes sociais: as contribuições de Armando Boito Jr. para a interpretação do Brasil”. Coordenada por Patrícia Vieira Trópia, a atividade reuniu Andréia Galvão, Danilo Enrico Martuscelli, Angela Lazagna e Pedro Paulo Zahluth Bastos.

A participação ampla no encontro evidencia a diversidade temática e institucional do INCT Trabalho e sua contribuição para o debate contemporâneo sobre trabalho, desigualdades, tecnologias, classes sociais, direitos e ação coletiva. Em um evento marcado pela celebração da trajetória da ANPOCS, o Instituto reafirmou seu compromisso com a produção coletiva e interdisciplinar de conhecimento socialmente relevante.

RETPAL debate no Colmex a regulação do trabalho em plataformas no México.

RETPAL debate no Colmex a regulação do trabalho em plataformas no México.

A Rede de Estudos sobre Trabalho por Plataformas na América Latina (RETPAL) organizou, no El Colegio de México (Colmex), o Seminário Internacional “La regulación del trabajo en plataformas digitales a un año de su implementación en México”, realizado em 7 de setembro de 2026. O encontro colocou em discussão a experiência mexicana de reforma laboral, com foco específico nos avanços, limites e desafios da regulação do trabalho mediado por plataformas digitais.

 

 

A atividade reuniu diferentes atores diretamente envolvidos no debate. Participaram Alejandro Salafranca, titular da Unidad de Trabajo Digno da Secretaría del Trabajo y Previsión Social; Sergio Guerrero, secretário-geral da Unión Nacional de Trabajadores por Aplicación (UNTA); Omar Escamilla, diretor de Estudios del Trabajo da Secretaría del Trabajo y Fomento al Empleo do Governo da Cidade do México; Graciela Bensusán, professora-pesquisadora da Universidad Autónoma Metropolitana – Xochimilco; e Ángel Quintanilla, representante da Rappi México.

A composição da mesa permitiu confrontar perspectivas do poder público, dos trabalhadores, da pesquisa acadêmica e das empresas de plataforma, favorecendo uma avaliação plural da experiência regulatória mexicana.

 

 

A reforma mexicana constitui uma referência importante para o debate latino-americano por enfrentar questões centrais relacionadas ao reconhecimento de direitos e à proteção social dos trabalhadores de plataformas, em um setor caracterizado pela gestão algorítmica e por formas de trabalho apresentadas pelas empresas como autônomas.

O Seminário possibilitou discutir os efeitos da implementação da nova regulação, as dificuldades encontradas e as disputas que permanecem abertas em torno de sua aplicação.

Para a RETPAL, o encontro reforçou a importância de acompanhar comparativamente as diferentes experiências nacionais de regulação do trabalho em plataformas. O caso mexicano oferece elementos particularmente relevantes para uma agenda latino-americana voltada à relação entre inovação tecnológica, direitos trabalhistas, proteção social, representação coletiva e regulação das plataformas digitais.

 

 

 

 

 

Seminário de grupos de pesquisa integrados ao INCT Trabalho reúne pós-graduandos da UFPB e UFCG

Seminário de grupos de pesquisa integrados ao INCT Trabalho reúne pós-graduandos da UFPB e UFCG

 

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O seminário “O Trabalho no Nordeste em Estudos Recentes” reuniu, em 13 de outubro de 2026, na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), pós-graduandos e pesquisadores para compartilhar e debater investigações sobre diferentes dimensões do trabalho. Realizado na Sala Fábio Freitas, o encontro foi organizado pelo LAEPT/UFPB e pelo TDEPP/UFCG, com apoio do LABORES/UFPB e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho).
A mesa de abertura contou com Maurício Rombaldi e Roberto Véras de Oliveira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Mário Ladosky, da UFCG, e Armida Concepción Garcia, da Universidad Autónoma de Zacatecas, México. A presença da pesquisadora mexicana acrescentou uma dimensão internacional ao encontro, voltado ao fortalecimento do intercâmbio acadêmico entre os grupos de pesquisa das duas instituições.
A programação foi organizada em quatro painéis temáticos, com exposições de pesquisas seguidas de debate coletivo. O primeiro, “Dinâmicas da informalidade e seus efeitos”, teve coordenação de Ana Márcia Batista, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Raynnara Laurentino Rodrigues apresentou as dissonâncias entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho; Mylena Serafim da Silva abordou as dinâmicas e desigualdades do comércio ambulante de João Pessoa; Nadyne Maria Marinho dos Santos discutiu narrativas construídas por motoristas de aplicativo no YouTube; e Maria Vitória Leite Nazário tratou da precarização do trabalho entre detentores de saberes tradicionais do artesanato paraibano.
O segundo painel, “Gênero, cuidado e reprodução das desigualdades”, foi coordenado por Márcia de Lima Pereira Couto, da UFCG. Virgínia Conceição Vasconcelos apresentou as vivências das costureiras do Polo de Confecções do Agreste pernambucano, enquanto Gabriela Maroja Jales de Sales discutiu a precariedade e a vulnerabilidade social entre costureiras da Região Metropolitana de João Pessoa. Vitória Karoline de Souza Tomé abordou as transformações do trabalho doméstico, considerando as redes sociais e a atuação das diaristas. Eduardo Donato examinou a organização do trabalho doméstico e de cuidados em Rio Tinto, na Paraíba, em relação ao padrão de trabalho no Nordeste.

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Sob coordenação de Roseli Corteletti, da UFCG, o terceiro painel discutiu “Novas tecnologias como ferramentas de controle e subordinação do trabalho”. Kerilin Laine Andrade Chang apresentou as condições de trabalho dos profissionais de tecnologia da informação do Polo Tecnológico de Campina Grande; Jaázyel Silva Cavalcanti de Moura analisou expectativas e capacidades de adaptação ao trabalho plataformizado sob controle da IWOF; Emerson Ferreira da Silva discutiu as relações e condições de trabalho dos entregadores por aplicativos de João Pessoa; e Ana Carla Souto de Oliveira Gomes abordou as trajetórias de trabalhadoras do setor de call center, a partir de um estudo da empresa AeC.

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O quarto painel, “Precarização e instituições do trabalho”, teve coordenação de Luiza Dantas de Souza Lima, da UFCG. Heloísa Santana Luna discutiu os dilemas da regulação e da proteção do trabalho em plataformas na Paraíba. Fabíola Cortezzi Guimarães Duarte apresentou as relações entre comerciantes, lideranças e poder público no Maior São João do Mundo de Campina Grande, no período de 2014 a 2024. Jaciara dos Santos Silva abordou os desafios da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora diante do aumento da informalidade. Kamilla Rocha Ferreira examinou o processo de trabalho docente nas Escolas Cidadãs Integrais da Paraíba.
Ao colocar em interação e debate pós-graduandos do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da UFPB e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da UFCG, o seminário fortaleceu a interlocução entre pesquisas sobre informalidade, gênero, cuidado, tecnologias, regulação e precarização. Com especial atenção às realidades do Nordeste, o encontro aproximou objetos e perspectivas de análise e contribuiu para a formação dos pesquisadores e para a articulação dos grupos integrados ao INCT Trabalho.

 

 

INCT Trabalho no XI Congresso da ALAST

INCT Trabalho no XI Congresso da ALAST

Pesquisadores e pesquisadoras que integram o INCT Trabalho participaram de lançamentos de livros, mesas temáticas e atividades de coordenação, além da conferência magistral. Com isso, fortaleceram o diálogo com uma ampla rede de colaboradores de diferentes países da região.

O INCT Trabalho teve participação expressiva no XI Congresso Internacional da Asociación Latinoamericana de Estudios del Trabajo (ALAST), realizado de 2 a 4 de setembro de 2026, em Guadalajara, México. O encontro reuniu pesquisadores de diversos países em torno do tema “Los nuevos escenarios del trabajo en América Latina ante los cambios políticos y económicos de la región”, com uma programação dedicada às transformações do trabalho diante da digitalização, da precarização, das mudanças produtivas e regulatórias e das novas configurações políticas e econômicas latino-americanas.

A presença do INCT Trabalho se deu em diferentes espaços do Congresso: na conferência magistral, lançamentos de livros, apresentação de pesquisas em mesas temáticas, coordenação de sessões e intercâmbio com pesquisadores brasileiros e estrangeiros que integram sua rede de colaboração.

Jose Ricardo Ramalho realizou a conferencia magistral intitulada “La reconfiguración de la centralidad del trabajo: nuevos desafíos de interpretación en América Latina”.

Outro momento de destaque foi o lançamento do Tratado Latinoamericano de Sociología del Trabajo, atividade incluída na programação oficial da manhã de 3 de setembro. A apresentação do Tratado ocupou a primeira atividade do segundo dia do Congresso, antes do início das mesas simultâneas de trabalho.

Participaram da mesa José Ricardo Ramalho (um dos organizadores) e Roberto Véras de Oliveira (um dos autores), integrantes do Comitê Gestor do INCT Trabalho. A presença no lançamento reafirmou o vínculo do INCT Trabalho com iniciativas voltadas à consolidação dos estudos do trabalho como campo de produção intelectual latino-americano e à intensificação do intercâmbio acadêmico entre pesquisadores da região.

A participação do INCT Trabalho esteve presente também nas sessões acadêmicas do Congresso. A Mesa 15, dedicada às transformações tecnológicas, à digitalização e ao trabalho mediado por plataformas, que teve na sua coordenação dois colaboradores internacionais do Instituto, Minor Mora e Julia Acosta, contou com quatro exposições por parte de seus integrantes.

Maria Aparecida Bridi, juntamente com Roberto Véras de Oliveira, apresentou o trabalho “Trabalho em plataformas de entrega no Brasil: dinâmicas laborais e análise comparativa entre cidades”. Armida Concepción García, em coautoria com Mario Henrique Guedes Ladosky, discutiu o trabalho de reparto por plataformas em perspectiva comparada entre México e Brasil. Já Andrea Delfino, da Argentina, apresentou estudo sobre a dimensão laboral das mudanças vinculadas às tecnologias no setor bancário argentino. Andriele Arnaud expôs sobre trabalho plataformizado e estratégias de sobrevivência.

Outra participação foi a de José Dari Krein, da Unicamp, em sessão dedicada às transformações do mercado de trabalho, precarização e desigualdades. Krein apresentou “Transformações e Permanências no Mercado de Trabalho Brasileiro”, inserindo o caso brasileiro no debate regional sobre as mudanças recentes nas formas de inserção laboral. A apresentação integrou a programação registrada na Mesa 7 do Congresso.

 

Roberto Véras de Oliveira, por sua vez, atuou na coordenação da Mesa 10, espaço voltado às reformas laborais, regulação do trabalho e seus impactos sobre direitos, relações de emprego e proteção social. A mesa reuniu estudos sobre Argentina, Brasil, Chile, México e Venezuela, abordando desde reformas legislativas até terceirização, negociação coletiva e precarização.

Participaram do Congresso diversos pesquisadores que integram ou mantêm colaboração acadêmica com a rede do Instituto. Entre eles estiveram Julio César Neffa, Andrea Delfino e Cecilia Senén González, da Argentina; Eugenia, do Brasil; Dasten Julián-Vejar, do Chile; María Julia Acosta, Francisco Pucci e Mariela Quiñones, do Uruguai; e Juan José Morales Márquez, Octavio Maza Díaz Cortés, Moisés Chávez e Minor Mora Salas, Marcela Hernandez, do México; entre muitos outros.

A diversidade desse conjunto expressa o alcance da interlocução que o INCT Trabalho vem construindo. Trata-se de uma rede que reúne especialistas em mercados de trabalho, relações laborais, sindicalismo, processos de trabalho, precarização, transformações tecnológicas, desigualdades, subjetividades e novas formas de organização coletiva.

A participação na ALAST reforçou, assim, uma das orientações estratégicas do INCT Trabalho: combinar a produção de pesquisas no Brasil com uma perspectiva comparativa e internacional. Em um cenário marcado pela expansão das tecnologias digitais e da inteligência artificial, pela persistência da informalidade, pelas reformas nos sistemas de proteção e regulação, pelas desigualdades de gênero e raça e pelas novas formas de ação coletiva, o intercâmbio latino-americano torna-se parte fundamental do esforço de compreender as transformações contemporâneas do trabalho.

 

Oficina do Eixo 8 do INCT-Trabalho discute desafios do pós-resgate de trabalhadores submetidos à escravidão contemporânea

Oficina do Eixo 8 do INCT-Trabalho discute desafios do pós-resgate de trabalhadores submetidos à escravidão contemporânea

Pesquisa apresentada durante o evento pretende mapear o atendimento a resgatados do trabalho escravo no Nordeste. 

A pesquisadora Valéria Costa Aldeci de Oliveira, do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), apresentou em 21 de setembro de 2026 o projeto que vai mapear os serviços de atendimento às vítimas de trabalho escravo contemporâneo no Nordeste. A apresentação ocorreu na oficina Políticas de Inclusão e o Trabalho Escravo Contemporâneo: estratégias de prevenção, proteção social e inclusão produtiva no Brasil, promovida pelo Eixo 8 do INCT Trabalho, Inclusão e Equidade. O foco é o pós-resgate, etapa em que, segundo a pesquisadora, a falta de alternativas de trabalho e renda leva os trabalhadores de volta à exploração.

 

A hipótese do estudo é que houve avanços na fiscalização e no resgate, mas há fortes limitações na continuidade do atendimento, na garantia do direito à renda e na articulação entre as políticas públicas. O projeto prevê uma base regional de informações sobre os serviços disponíveis, com a identificação de lacunas de cobertura e indicadores da capacidade de cada território de proteger e reinserir as pessoas resgatadas.

O produto final será o Observatório do Atendimento às Vítimas na Paraíba, em parceria com o núcleo estadual de direitos humanos. Segundo Valéria Costa, o estado tem serviço de atendimento, mas os dados não estão sistematizados nem acessíveis. O trabalho vai integrar bases do IBGE, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), do Unicef, do Ministério Público do Trabalho, do SmartLab e do Cadastro Único (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social).

 

 

Resgates crescem na construção civil

Os números apresentados indicam mudança no perfil do problema, antes concentrado no campo. Na Paraíba, foram 258 resgates em 2025, contra 53 em 2024, aumento de 386%. A maior parte dos casos está na construção civil de João Pessoa e Cabedelo. Em 2026, uma nova operação resgatou 170 trabalhadores em obras nas duas cidades.

Em 2025, os estados com mais resgates foram Mato Grosso (607), Bahia (482), Minas Gerais (393) e São Paulo (276), seguidos pela Paraíba. As vítimas são, em sua maioria, homens pretos e pardos, com idade média de 34 anos. As atividades rurais ainda predominam, mas crescem os casos urbanos, inclusive entre migrantes venezuelanos e bolivianos e no setor de confecção.

A pesquisadora apontou subnotificação. As equipes locais de auditoria fiscal têm dificuldade de realizar fiscalizações constantes, e o trabalho doméstico é pouco alcançado, porque as residências são invioláveis. A OIT estima que 50 milhões de pessoas vivam em situação de escravidão moderna no mundo.

Ela também relacionou o problema ao trabalho infantil, que descreveu como origem do trabalho escravo. Dados do SmartLab citados na oficina registram, entre 2022 e 2024, 194 casos de crianças e adolescentes em trabalho análogo à escravidão no Maranhão, 168 no Pará e 124 na Bahia.

“Tinham fome”

O interesse pelo pós-resgate vem de pesquisa feita durante a pandemia pelo núcleo Labores, da UFPB, após o resgate de 20 trabalhadores em Tavares e Manaíra, no sertão paraibano. Nenhum deles se reinseriu no mercado de trabalho. Os cursos de qualificação em que a equipe de assistência social tentou incluí-los exigiam uma escolaridade mínima que eles não tinham.

Em comunidades quilombolas da região, a equipe ouviu relatos de trabalhadores escravizados mais de uma vez. Segundo a pesquisadora, eles voltaram a aceitar as propostas dos aliciadores, conhecidos como “gatos”, “não porque não sabiam que poderiam ser escravizados, mas porque tinham fome”.

Para Valéria Costa, as políticas sociais são importantes, mas têm limites para inserir trabalhadores produtivamente sem políticas de desenvolvimento regional que criem oportunidades nos próprios territórios. Ela aponta como um possível caminho a economia solidária, baseada em cooperativas e nas potencialidades locais, por permitir a criação de trabalho sem exigir qualificação formal imediata. Enfatizou também a importância do monitoramento pós-resgate, para saber se houve reinserção ou nova vitimização.

O que a lei define

O artigo 149 do Código Penal caracteriza a condição análoga à de escravo por quatro elementos: trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes e servidão por dívida. A pena é de dois a oito anos de reclusão, além de multa. Os elementos não precisam aparecer juntos para configurar o crime.

A pesquisadora lembrou que o Brasil só reconheceu oficialmente o problema em 1995, sob pressão de organismos internacionais e após condenação na Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso da Fazenda Brasil Verde. Como contraponto, citou o conceito de trabalho decente, da OIT: trabalho produtivo e de qualidade, exercido em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade, com proteção social e diálogo com os trabalhadores.

O enfrentamento se organiza em dois eixos, repressão e proteção às vítimas, e passa por denúncia, fiscalização, resgate e atendimento emergencial. Depois, acontece o encaminhamento à assistência social, o acesso a benefícios como o Bolsa Família, o cuidado com a saúde mental e a inclusão produtiva.

Raízes históricas e impunidade

Valéria Costa atribuiu o problema à herança escravocrata, a um racismo que atinge também trabalhadores nordestinos e sertanejos e às dinâmicas do capitalismo contemporâneo, por meio das cadeias globais de produção. Norte e Nordeste, marcados por pobreza extrema, são as regiões mais procuradas pelos aliciadores.

Ela relatou pesquisas realizadas desde 2016 com trabalhadores do Nordeste, junto ao LAEPT (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas e Trabalho - UFPB), entre elas a que registrou a memória dos canavieiros e de lideranças como Elizabeth Teixeira e Margarida Maria Alves. A conclusão é que essas lutas já enfrentavam o trabalho escravo. “Lutaram contra a escravidão contemporânea e a gente não denominava assim”, disse.

Ao analisar o caso de Sônia Maria, escravizada na casa de um desembargador em Santa Catarina, a pesquisadora apontou conservadorismo e impunidade no Judiciário. Segundo ela, o discurso da afetividade, de que a vítima “é da família”, tem sido usado para justificar a escravidão doméstica.

 

José Ricardo Ramalho é conferencista magistral no XI Congresso da ALAST

José Ricardo Ramalho é conferencista magistral no XI Congresso da ALAST

O sociólogo José Ricardo Ramalho foi o responsável pela conferência magistral de abertura do XI Congresso Internacional da Asociación Latinoamericana de Estudios del Trabajo (ALAST), realizado de 2 a 4 de setembro de 2026, em Guadalajara, México.

 

Com o título “La reconfiguración de la centralidad del trabajo: nuevos desafíos de interpretación en América Latina”, a conferência abriu a programação acadêmica do encontro e propôs uma reflexão de largo alcance sobre as transformações contemporâneas do trabalho e os desafios que elas colocam para a Sociologia do Trabalho na região.

 

 

A ALAST e os novos cenários do trabalho na América Latina

A ALAST reúne pesquisadores e pesquisadoras dedicados aos estudos do trabalho em diferentes países latino-americanos e constitui um espaço consolidado de intercâmbio, produção acadêmica e debate sobre as transformações do mundo laboral na região.

 

 

Em sua 11ª edição, o Congresso teve como tema geral “Los nuevos escenarios del trabajo en América Latina ante los cambios políticos y económicos de la región”. Realizado em formato híbrido, com sede presencial em Guadalajara, o encontro foi organizado em torno de uma extensa programação de mesas de trabalho, sessões plenárias, conferências e lançamentos de livros. O documento do Congresso destaca, entre os problemas que orientaram as discussões, a reestruturação econômica, os efeitos da crise sanitária, a expansão das plataformas digitais, a precariedade laboral, as novas tecnologias, as mudanças nos mercados de trabalho e os desafios colocados à ação sindical.

A conferência de Ramalho ocupou lugar de destaque na programação: foi realizada logo após a abertura oficial, na manhã do primeiro dia do Congresso.

 

 

José Ricardo Ramalho é professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem uma longa trajetória de pesquisa sobre trabalho, sindicalismo, processos de reestruturação produtiva e transformações do capitalismo. Integra também o Comitê Gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho: estratégias de emancipação (INCT Trabalho).

A centralidade do trabalho em novas bases

Em sua exposição, Ramalho partiu da história do conceito de trabalho e de sua importância nas tradições clássicas da Sociologia. Marx, Durkheim, Weber e W.E.B. Du Bois foram mobilizados para mostrar como, por diferentes caminhos, o trabalho se constituiu em dimensão central para compreender a modernidade, seja por sua relação com a exploração e as classes sociais, seja por seus efeitos sobre integração social, racionalização e formação histórica das desigualdades raciais.

 

 

A conferência acompanhou, em seguida, as mudanças trazidas pela crise do fordismo, pela reestruturação produtiva, pela globalização e pelas tecnologias da informação. O argumento central foi o de que a digitalização não deve ser vista simplesmente como ruptura absoluta com processos anteriores, mas também como aprofundamento de tendências associadas à acumulação flexível: fragmentação das relações de emprego, integração de cadeias globais, automação, monitoramento e novas modalidades de controle.

Ao recuperar debates sobre o possível “fim” ou perda de centralidade do trabalho, Ramalho contrapôs diferentes perspectivas. Destacou, em particular, a contribuição latino-americana de Enrique de la Garza, para quem o trabalho não desapareceu: transformaram-se suas formas de organização, regulação e expressão social. A noção de “trabalho não clássico” permite, nesse sentido, incorporar à análise trabalhadores informais e autônomos, trabalho doméstico, atividades de cuidado, serviços e trabalho mediado por plataformas digitais.

Uma agenda de pesquisa para os próximos anos

A parte final da conferência foi dedicada a uma agenda para a Sociologia do Trabalho latino-americana. Ramalho propôs cinco frentes articuladas de investigação. A primeira envolve digitalização, inteligência artificial, automação e capitalismo de plataforma, com atenção ao controle algorítmico, à vigilância, à intensificação laboral e às mudanças na distribuição do conhecimento produtivo.

A segunda trata da crise ambiental e da transição ecológica, investigando seus efeitos sobre emprego, renda, saúde, territórios e direitos, mas também recolocando a importância da ideia de uma transição justa, com negociação coletiva e participação dos trabalhadores. A terceira volta-se às transformações na regulação do trabalho, especialmente seus efeitos sobre direitos, negociação coletiva e desigualdades.

A quarta frente enfatiza as novas formas de ação coletiva, sobretudo entre trabalhadores dispersos, precarizados e vinculados às plataformas digitais. Já a quinta reafirma a centralidade de temas transversais como gênero, raça, geração, território e família, a serem tratados por perspectivas interseccionais.

 

 

A conclusão sintetizou a principal provocação da conferência: o desafio atual não consiste simplesmente em decidir se o trabalho continua ou não sendo central, mas em compreender como essa centralidade está sendo reconfigurada em um capitalismo atravessado simultaneamente pela digitalização, pela crise ecológica, pela financeirização e por desigualdades persistentes. Para a América Latina, acrescentou Ramalho, essa agenda exige incorporar as heranças do colonialismo e da escravidão, a heterogeneidade estrutural dos mercados de trabalho e a diversidade das trajetórias nacionais de desenvolvimento.

 

Seminário INCT 2026 reúne redes científicas estratégicas de todo o país em Brasília

Seminário INCT 2026 reúne redes científicas estratégicas de todo o país em Brasília

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) realizou, de 22 a 24 de setembro, em Brasília, o Seminário INCT 2026. O encontro reuniu coordenadores e representantes dos 243 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia atualmente em atividade, além de dirigentes do CNPq, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), da Capes, do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e de outras instituições parceiras. Ao longo de três dias, foram compartilhadas orientações de gestão, resultados de avaliações e experiências de institutos de diferentes áreas do conhecimento. 

 

 

Criado formalmente em 2008, como desdobramento do Programa Institutos do Milênio, o Programa INCT tornou-se uma das principais iniciativas de organização da pesquisa científica brasileira em redes cooperativas. Os institutos articulam pesquisadores, universidades, centros de pesquisa e parceiros nacionais e internacionais em torno de temas estratégicos. Suas atividades abrangem produção científica, formação de recursos humanos, internacionalização, difusão do conhecimento e transferência de resultados para a sociedade, o setor produtivo e o poder público.

 

 

Os INCTs não se limitam, portanto, a projetos de pesquisa de grande porte. São estruturas interinstitucionais, interdisciplinares e, em muitos casos, transdisciplinares, orientadas por objetivos e metas relacionados a problemas nacionais. Em cinco chamadas públicas, o programa apoiou 470 projetos, com aportes acumulados superiores a R$ 3,8 bilhões provenientes do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e de instituições parceiras. Os 243 institutos vigentes resultam principalmente das chamadas de 2022, com 100 projetos, e de 2024, que selecionou 143 institutos novos ou renovados.

Para o CNPq, o programa representa uma das experiências mais valiosas e estratégicas da ciência brasileira. Seu alcance depende da articulação entre diferentes fontes e instituições de fomento, com destaque para o FNDCT, a Capes, o Ministério da Saúde, as fundações estaduais de amparo à pesquisa e a Finep. Essa composição permite conectar excelência científica, formação de pesquisadores, infraestrutura, cooperação federativa e agendas de desenvolvimento nacional.

 

 

A programação do seminário foi organizada em três grandes blocos. O primeiro dia concentrou-se na gestão das chamadas públicas e do fomento. Foram abordados procedimentos financeiros, bolsas no país e no exterior, importação de equipamentos, prestação de contas e canais de comunicação com a equipe responsável pelo programa. As apresentações esclareceram dúvidas práticas e reforçaram a necessidade de documentação adequada, planejamento das despesas, atualização das equipes nas plataformas do CNPq e acompanhamento sistemático da execução dos projetos.

Ainda no primeiro dia, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) apresentou a avaliação de 104 INCTs vinculados às chamadas de 2010 e 2014. O estudo mobilizou aproximadamente 14 mil currículos da Plataforma Lattes, relatórios institucionais, formulários respondidos pelos coordenadores e 27 avaliadores externos. Sua metodologia foi qualitativa, multidimensional e não classificatória: em vez de produzir um ranking, buscou compreender trajetórias, capacidades construídas, dificuldades e impactos científicos, tecnológicos, sociais, institucionais e territoriais.

 

 

A avaliação mostrou que os INCTs constituem redes científicas maduras, produtivas e fortemente integradas. Laboratórios, observatórios, bases de dados, coleções, plataformas tecnológicas e serviços especializados formam ativos que permanecem além de cada ciclo de financiamento. Por isso, uma das recomendações centrais foi reconhecer o programa como política de Estado, com avaliação contínua, governança adequada e maior previsibilidade financeira. A descontinuidade pode fragmentar redes, dispersar competências e comprometer infraestruturas construídas com investimentos públicos de longo prazo.

Outro ponto destacado foi que o Estado brasileiro ainda utiliza menos do que poderia a inteligência produzida pelos institutos. A aproximação com ministérios, órgãos públicos, empresas e organizações sociais ocorre, mas de modo desigual e muitas vezes por demandas isoladas. O desafio é criar canais permanentes para que dados, diagnósticos e soluções desenvolvidos pelos INCTs contribuam de forma sistemática para a formulação, implementação e avaliação de políticas públicas. Comunicação e legitimidade social também foram apresentadas como dimensões estratégicas: é necessário dar visibilidade não apenas à produção acadêmica, mas aos efeitos concretos da pesquisa.

No segundo dia, o CNPq apresentou o monitoramento parcial dos 100 institutos da chamada de 2022. A análise considerou execução de metas e cronogramas, formação de recursos humanos, difusão do conhecimento, articulação das redes e internacionalização. As ciências humanas, sociais aplicadas e a educação se destacaram pela divulgação científica, pela produção de livros, pelo diálogo direto com a sociedade e pelas contribuições às políticas públicas. A discussão ressaltou que impacto não pode ser medido apenas por artigos: deve considerar o estágio de desenvolvimento de cada instituto e a capacidade de produzir efeitos práticos.

 

 

Nos dois últimos dias, institutos da chamada de 2022 das ciências humanas e sociais, engenharias, tecnologias da informação, ciências biológicas, saúde, ciências exatas e da Terra, meio ambiente e ciências agrárias apresentaram suas experiências. Os relatos evidenciaram a diversidade do programa: estudos sobre futebol e planejamento regional conviveram com pesquisas em inteligência artificial, redes de comunicação, doenças raras, segurança hídrica, biodiversidade, vigilância genômica e agricultura. Apesar das diferenças temáticas, reapareceram desafios comuns, como integração interna, sustentabilidade das equipes, internacionalização, compartilhamento de infraestrutura, comunicação pública e transformação dos resultados em benefícios sociais.

O INCT Trabalho, Inclusão e Equidade participou do seminário por meio de seu coordenador, Roberto Véras de Oliveira. A presença permitiu acompanhar diretamente as orientações do CNPq, os critérios de monitoramento e o debate sobre o futuro do programa, assim como estabelecer contatos com os demais coordenadores, especialmente os que atuam em temáticas afins. Para o INCT Trabalho, as discussões reforçam a importância de registrar adequadamente projetos, publicações, orientações, bolsas, atividades em rede e impactos em políticas públicas; ampliar a integração entre seus eixos; dar visibilidade à produção com a marca institucional; e apresentar de forma consistente sua contribuição para a compreensão das transformações do trabalho, das desigualdades e das políticas de inclusão e equidade.

 

 

O Seminário INCT 2026 evidenciou, sobretudo, a dimensão do desafio de construir uma política nacional de ciência, tecnologia e inovação. Um país continental, desigual e inserido de forma dependente na economia mundial precisa produzir conhecimento para enfrentar problemas sociais, ambientais, econômicos, sanitários e tecnológicos a partir de uma perspectiva soberana. Nesse cenário, os INCTs cumprem papel estratégico: articulam competências dispersas, formam novas gerações de pesquisadores, preservam capacidades científicas, conectam territórios e oferecem inteligência para decisões públicas. Consolidá-los como política de Estado significa transformar redes de excelência em capacidade nacional permanente para compreender os problemas do país e construir respostas à altura de sua complexidade.

 

Diálogos críticos: El pensamiento extranjero y la sociología del trabajo en América Latina é lançado durante congresso da ALAST

Diálogos críticos: El pensamiento extranjero y la sociología del trabajo en América Latina é lançado durante congresso da ALAST

Nova obra reúne pesquisadores de 11 países e amplia para a América Latina projeto iniciado no Brasil sobre as relações entre os estudos sobre trabalho e o pensamento internacional

O livro Diálogos críticos: el pensamiento extranjero y la sociología del trabajo en América Latina foi lançado durante o Congresso da Asociación Latinoamericana de Estudios del Trabajo (ALAST), reunindo pesquisadores e pesquisadoras de diferentes países latino-americanos. A sessão contou com a presença dos três organizadores — Roberto Véras de Oliveira, José Ricardo Ramalho e Maria Aparecida Bridi —, além de vários autores e autoras da coletânea e participantes do congresso provenientes de diversos países. Entre autores e autoras, participaram: Octavio Maza (México), Andrea Delfino (Argentina), Francisco Pucci, Mariela Quiñones, Julia Acosta e Leonardo Cosse (Uruguai) e Dasten Julián (Chile).

 

 

A ALAST constitui um dos principais espaços de articulação da comunidade acadêmica dedicada aos estudos do trabalho na região. Seus congressos vêm contribuindo para consolidar uma tradição latino-americana de reflexão sobre o trabalho, promovendo o intercâmbio entre pesquisadores de diferentes países e perspectivas teóricas e metodológicas.

 

 

Nesse contexto, o lançamento de Diálogos críticos ganha significado especial. Publicado em setembro de 2026 pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO), em formato digital e de acesso livre, o livro procura reconstruir a constituição histórica dos estudos do trabalho na América Latina a partir de sua interlocução com o pensamento produzido no exterior, interrogando as formas de recepção, apropriação e reelaboração crítica de teorias e conceitos a partir de diferentes realidades latino-americanas.

 

 

A dimensão coletiva e internacional do projeto se expressa em seus números: são 44 pesquisadores e pesquisadoras, de 11 países, reunidos em 30 capítulos. Organizada em seis partes, a coletânea percorre questões relacionadas às transformações do capitalismo, mercados de trabalho, Estado e direitos sociais, processos de trabalho e organização produtiva, reprodução social e crítica feminista, autores clássicos e contemporâneos e, de maneira particularmente importante, teorizações produzidas na própria América Latina.

 

 

A publicação dá continuidade e amplia um projeto iniciado no Brasil. Em 2023 foi lançado Diálogos críticos: o pensamento estrangeiro e a sociologia do trabalho no Brasil, organizado por Roberto Véras de Oliveira, José Ricardo Ramalho e Cesar Sanson. Com 37 capítulos, a primeira coletânea realizou um amplo balanço das maneiras pelas quais autores e correntes internacionais foram incorporados, discutidos e reelaborados pelos estudos do trabalho do Brasil.

 

 

O novo livro desloca essa indagação para a escala latino-americana. Mais do que simplesmente ampliar geograficamente o primeiro projeto, busca evidenciar como conceitos originados em diferentes tradições intelectuais ganham novos sentidos quando confrontados com as particularidades históricas do trabalho, das desigualdades e do capitalismo na região.

 

 

Os três organizadores da nova coletânea integram o Comitê Gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho: estratégias de emancipação (INCT Trabalho). A convergência entre o livro e o Instituto se expressa na valorização da cooperação científica, na articulação de redes nacionais e internacionais e no esforço de produzir interpretações sobre o trabalho capazes de combinar rigor teórico, pesquisa empírica e atenção às especificidades latino-americanas.

 

 

A sessão na ALAST também marcou o início de uma nova etapa: fazer o livro circular. Os organizadores propõem a realização de lançamentos e debates em diferentes países e instituições, com a participação de autores e autoras da coletânea. A intenção é prolongar, agora por meio da circulação e discussão da obra, os próprios “diálogos críticos” que estiveram na origem do projeto.

 

 

As duas obras podem ser lidas integralmente e baixadas gratuitamente.

Edição latino-americana (2026):
Diálogos críticos: el pensamiento extranjero y la sociología del trabajo en América Latina
Roberto Véras de Oliveira, José Ricardo Ramalho e Maria Aparecida Bridi (eds.) — CLACSO. ISBN 978-631-308-351-0.

Edição brasileira (2023):
Diálogos críticos: o pensamento estrangeiro e a sociologia do trabalho no Brasil
Roberto Véras de Oliveira, José Ricardo Ramalho e Cesar Sanson (orgs.) — Annablume.

 

INCT-Trabalho debate crise climática e desafios da pesquisa em encontro da RENAPEDTS na UFPR

INCT-Trabalho debate crise climática e desafios da pesquisa em encontro da RENAPEDTS na UFPR

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho) participou do IX Encontro da Rede Nacional de Pesquisas e Estudos em Direito do Trabalho e da Seguridade Social (RENAPEDTS), sob a organização do professor Sidnei Machado (UFPR) e equipe, com a presença de integrantes de seu Comitê Gestor: Adalberto Moreira Cardoso (IESP/UERJ), Renata Dutra (UnB), José Dari Krein (CESIT/Unicamp) e Maria Aparecida Bridi (UFPR). Realizado nos dias 27 e 28 de agosto no Prédio Histórico da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, o encontro reuniu pesquisadores das áreas jurídica, sociológica e econômica para debater questões relacionadas à regulação do trabalho, às desigualdades e ao papel das instituições democráticas no Brasil.

A programação incluiu debates sobre crise climática, transformações do trabalho e desafios teóricos e metodológicos para a pesquisa, temas que também integram a agenda de investigação do INCT-Trabalho.

A programação da manhã do dia 28 de agosto foi aberta com a conferência "Trabalho e crise climática: por uma sociologia ecológica do trabalho", ministrada por Adalberto Moreira Cardoso, integrante do Comitê Gestor do INCT-Trabalho, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET) e professor do IESP/UERJ. Com coordenação de Magda Barros Biavaschi (Unicamp) e mediação de Carlos Eduardo Soares Freitas (UFBA), a exposição abordou as urgências socioambientais contemporâneas e a necessidade de incorporar a dimensão da transição ecológica às análises sobre os modelos produtivos e a garantia de direitos sociais.

Em sua apresentação, Adalberto Cardoso propõe o conceito de crise ecológica do trabalho para compreender de que modo a crise climática deixa de ser apenas um fator externo que afeta determinados setores econômicos e passa a incidir sobre as próprias condições que tornam o trabalho possível. Partindo da concepção marxiana do trabalho como metabolismo entre sociedade e natureza e dialogando com autores da ecologia marxista, dos Environmental Labour Studies e da ecologia política, o argumento sustenta que a instabilidade das condições biofísicas produzida pela acumulação capitalista afeta simultaneamente a realização da atividade laboral e a reprodução social das capacidades de trabalho. O conceito é desenvolvido por meio de cinco movimentos: as perturbações ambientais reduzem ou reorganizam a capacidade de trabalhar; elevam os custos de reprodução da força de trabalho; esses custos são redistribuídos entre empresas, Estado, famílias e comunidades; seus efeitos variam conforme classe, gênero, raça, território e regime de emprego; e sua distribuição torna-se objeto de conflito e organização coletiva.

Essa dinâmica é analisada por meio de três mediações centrais — corpo, infraestrutura e cuidado — que mostram como calor, poluição, eventos extremos e degradação ambiental atravessam tanto o processo de trabalho quanto a reprodução cotidiana da vida. A crise ecológica do trabalho, porém, não produz apenas vulnerabilidade: ela também abre um campo de resistências, expresso nas lutas por justiça ambiental e climática, no ecologismo dos pobres e nas disputas em torno da transição justa. O caso brasileiro evidencia esses mecanismos nas relações entre calor, informalidade e trabalho por plataformas, nos efeitos das enchentes sobre infraestrutura e reprodução social e nos conflitos territoriais da Amazônia e do Pantanal. A proposta, assim, amplia a sociologia do trabalho ao incorporar as condições ecológicas como dimensão constitutiva da exploração, da precariedade, da desigualdade e da reprodução social no século XXI.

Na sequência, a Mesa Especial "Desafios epistemológicos sobre trabalho, desigualdades e instituições no Brasil", coordenada por Jorge Luiz Souto Maior (USP) e mediada por Valdete Souto Severo (UFRGS), reuniu três integrantes do Comitê Gestor do INCT-Trabalho — Renata Dutra (UnB), José Dari Krein (CESIT/Unicamp) e Maria Aparecida Bridi (UFPR) —, além de João Victor Marques da Silva (UFPE). As intervenções discutiram diferentes questões teóricas e metodológicas envolvidas na produção de conhecimento sobre o trabalho e as desigualdades no país. Nesta mesa, João Victor Marques da Silva, abordou o papel das relações raciais na construção da forma jurídica da exploração do trabalho no Brasil.

 

 

Renata Dutra, em sua fala, apresentou alguns dos desafios teóricos e metodológicos para o enfrentamento das questões relativas às desigualdades no mundo do trabalho. Com foco nos desafios específicos do Direito do Trabalho, apontou a existência de duas abordagens das desigualdades.

Primeiro, o resgate e a afirmação constante daquela desigualdade que é a premissa do Direito do Trabalho, ou seja, a desigualdade de classes e que enseja a imperativa intervenção contratual na relação assimétrica entre trabalhador e tomador de serviços.

Segundo, a necessidade de contemplar outros marcadores de desigualdades, abordando-os interseccionalmente, de modo a levá-los a sério, ou seja, considerá-los não apenas no diagnóstico, mas na reconstrução estrutural do Direito do Trabalho. Aqui estariam contemplados os marcadores de raça, gênero, sexualidade, idade/geração, origem, entre outros.

Cada uma dessas abordagens enfrenta desafios metodológicos próprios, uma vez que, primeiro, há uma intensa disputa ideológica quanto ao reconhecimento das vulnerabilidades da classe trabalhadora e de sua demanda por proteção social, em um contexto no qual avançam os discursos do empreendedorismo e do individualismo, bem como as perspectivas biográficas e as soluções violentas propostas pela extrema direita para o enfrentamento das questões sociais. Adicione-se a esse cenário a captura das instituições, inclusive jurisdicionais, no que diz respeito à flexibilização do Direito do Trabalho e à autonomia contratual.

Por outro lado, em relação aos marcadores transversais, há o desafio de construir aparatos teórico-metodológicos próprios à sua adequada compreensão, que possam capturá-los e não subestimá-los na estruturação das relações sociais. Assim, compreender os desafios que o racismo impõe à construção de sujeitos de direitos trabalhistas, bem como assimilar o cuidado como trabalho de forma central, entre outros marcadores, sugere a necessidade de reformular premissas, instrumentos e abordagens das pesquisas.

Pesquisa orientada pela realidade e pelas evidências

 

Em sua exposição, intitulada "Desafios epistemológicos sobre trabalho, desigualdades e instituições no Brasil: empiria, história, teoria e transformação social", José Dari Krein (CESIT/Unicamp) discutiu caminhos metodológicos para compreender uma realidade do trabalho marcada por mudanças e permanências. Sua reflexão articulou quatro dimensões — empiria, história, teoria e transformação social — e defendeu a centralidade do trabalho para a análise de temas como desenvolvimento, democracia e sustentabilidade.

Krein destacou a necessidade de compreender as transformações em curso sem perder de vista permanências estruturais das relações de trabalho. Segundo o pesquisador, novas formas de organização e mediação do trabalho não eliminam necessariamente relações de exploração, assimetrias de poder ou formas de subordinação. Fenômenos como a pejotização, o trabalho por plataformas, a gestão por algoritmos e a inteligência artificial também evidenciam, em sua análise, a necessidade de uma abordagem interdisciplinar, capaz de articular Economia, Sociologia, Ciência Política e Direito.

Ao tratar da relação entre teoria e evidências empíricas, Krein recuperou o que denominou "atitude Conceição Tavares": partir da descrição rigorosa da realidade e de sua formação histórica antes de enquadrá-la em modelos teóricos previamente definidos. Ao defender a importância de "amar os dados", ressaltou a necessidade de rever interpretações quando as evidências contrariam hipóteses iniciais.

O pesquisador também abordou o papel das instituições, entendidas como resultados de processos históricos e, ao mesmo tempo, espaços de disputa social. Por fim, destacou experiências de pesquisa em rede, como os INCTs e os CEPIDs, como formas de organizar a investigação a partir de problemas complexos e aproximar a produção de diagnósticos da formulação de políticas públicas.

Categorias analíticas diante das transformações do trabalho

 

Em sua participação na mesa, Maria Aparecida Bridi discutiu os desafios envolvidos na interpretação das transformações contemporâneas do trabalho. A reflexão partiu de uma questão central: em que medida as categorias utilizadas pela pesquisa ajudam a compreender as mudanças em curso ou podem ocultar dimensões relevantes da realidade social. A pesquisadora defendeu, nesse contexto, a centralidade do trabalho como categoria explicativa da sociedade brasileira.

Bridi chamou atenção para dois riscos analíticos: a "cegueira diante da mudança" e o "fascínio pela novidade". O primeiro ocorre quando categorias analíticas são aplicadas de forma rígida, sem considerar sua historicidade e as transformações da realidade social; o segundo, quando novos arranjos produtivos ou tecnológicos são tomados automaticamente como rupturas, obscurecendo relações e mecanismos que permanecem. No caso das plataformas digitais, por exemplo, denominações como "parceiro", "colaborador" ou "empreendedor", segundo a pesquisadora, precisam ser confrontadas com as condições concretas de trabalho, incluindo assimetrias de poder, dependência econômica e transferência de riscos.

A pesquisadora também problematizou interpretações deterministas sobre a tecnologia, retomando estudos realizados em montadoras de automóveis no Paraná. Mesmo em plantas altamente automatizadas, persistiam conflitos relacionados ao ritmo de trabalho, ao banco de horas e ao desgaste físico, indicando a necessidade de considerar as relações sociais e de poder nas quais as tecnologias são introduzidas.

Outro eixo da exposição foi a crítica à individualização de problemas sociais e ao caráter não neutro das classificações. Para Bridi, categorias utilizadas para nomear relações de trabalho ajudam a definir como essas relações serão reconhecidas, reguladas e protegidas. Entre os desafios epistemológicos destacados estão reconhecer a historicidade das categorias; distinguir transformação de ruptura e novidade de permanência; incorporar as diferentes dimensões das desigualdades; e desnaturalizar a individualização dos problemas sociais.

 

INCT Trabalho promove segunda sessão de seminário sobre o trabalho na era digital

INCT Trabalho promove segunda sessão de seminário sobre o trabalho na era digital

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) realizou, na quarta-feira, 26 de agosto, a segunda sessão do I Seminário do Eixo 5: “Contribuições teóricas sobre o trabalho na era digital”. Realizado de forma virtual, o encontro deu continuidade às discussões iniciadas em 24 de agosto, reunindo pesquisadores(as), docentes, estudantes e demais interessados nas transformações contemporâneas do trabalho associadas à digitalização e à plataformização.

O seminário integra as atividades do Eixo 5 do INCT Trabalho e busca promover o diálogo entre diferentes perspectivas teóricas sobre o trabalho na era digital. A programação do dia foi organizada em duas mesas.

  • Mesa 1: Andrea Delfino (UNL/UNR), com a exposição “Digitalização e tempo de trabalho”, e Mariela Quiñones (Udelar), com “La estructuración social del tiempo en el trabajo digital”, sob mediação de Armida García (UAZ).
  • Mesa 2: Henrique Amorim (UNIFESP), que discutiu “Plataformas digitais como uma nova maquinaria?”, e Márcia Leite (UAM), com “Trabajo mediado por plataforma. Hacia un nuevo modelo productivo?”, sob mediação de Mario Henrique Guedes Ladosky (UFCG).

A primeira mesa, Mariela Quiñones abordou a digitalização a partir de uma teoria mais ampla da aceleração, compreendida como uma lógica estrutural do capitalismo contemporâneo. A pesquisadora destacou que, no capitalismo digital, a produção de valor envolve não apenas o trabalho tradicional, mas também dados, interação, subjetividade, atenção, visibilidade e reputação. Nesse contexto, o tempo passa a ser não apenas uma medida do trabalho, mas também um elemento de valorização. Quiñones, discutiu ainda a intensificação dos ritmos, a redução das pausas e a exigência de disponibilidade, aspectos que contribuem para novas desigualdades temporais. A aceleração pode produzir fragmentação, vigilância contínua e dificuldades para estabelecer limites entre trabalho e não trabalho. A exposição também abordou as relações entre flexibilidade e gênero, destacando que a autonomia sobre os horários pode favorecer a conciliação com atividades de cuidado, mas também provocar perda de rendimentos quando os períodos de maior demanda são incompatíveis com essas responsabilidades.

Andrea Delfino, por sua vez, analisou as transformações do tempo de trabalho e suas manifestações nas atividades laborais. A partir da teoria do valor-trabalho de Marx e de pesquisas com trabalhadores plataformizados de entrega, discutiu a porosidade do tempo de trabalho e as mudanças nas jornadas e no chamado tempo das prestações laborais. A exposição destacou o paradoxo entre a valorização da flexibilidade pelos trabalhadores e a dilatação das jornadas e da subordinação decorrentes da gestão algorítmica.

 

A mediação de Armida García articulou as exposições e o debate sobre diferentes temporalidades no trabalho digital. As discussões permitiram relacionar aceleração, disponibilidade, cuidado, desigualdades e formas contemporâneas de extração de valor em diferentes contextos de trabalho.

Na segunda mesa, Henrique Amorim discutiu se as plataformas digitais podem ser compreendidas como uma nova maquinaria. A partir da análise das transformações das forças produtivas e da relação entre elementos novos e antigos, o pesquisador argumentou que a produção por plataformas pode ser entendida como uma forma de produção industrial, ainda que não esteja restrita ao espaço fabril. As plataformas, segundo a análise apresentada, radicalizam características da produção industrial ao combinar trabalhadores, fragmentar tarefas e controlar tempos, movimentos e ritmos por meio de aplicativos e sistemas digitais.

Amorim, também destacou a transferência de custos e riscos aos trabalhadores, que passam a assumir despesas com equipamentos, veículos e outros recursos necessários à atividade. A discussão abordou ainda a expansão do gerenciamento algorítmico, da individualização e do autogerenciamento, apontando a plataformização como uma intensificação de mecanismos de exploração, controle e subordinação do trabalho.

Márcia Leite encerrou as exposições discutindo o trabalho mediado por plataformas e a possibilidade de configuração de um novo modelo produtivo. Com base em pesquisas realizadas no Brasil e no México, a pesquisadora apresentou a hipótese de que o capital busca estabelecer um novo momento da produção capitalista, ainda marcado por transições e disputas. Para Leite, as transformações não são determinadas apenas pela tecnologia, mas também pelas trajetórias das relações de trabalho e pelas lutas dos trabalhadores em diferentes contextos.

A exposição destacou a combinação entre novas tecnologias e formas de gestão voltadas ao aumento da produtividade e da extração de mais-valia, ao mesmo tempo em que recuperam mecanismos como o pagamento por peça e formas intensas de controle. Também foram discutidos processos de terceirização e externalização e as cadeias formadas por empresas, fornecedores e trabalhadores, nas quais a pressão pela redução de custos pode repercutir sobre as condições de trabalho e o valor da força de trabalho. A comparação entre Brasil e México evidenciou que a configuração desse modelo permanece em disputa entre estratégias do capital e ações coletivas dos trabalhadores.

A mediação de Mario Henrique Guedes Ladosky aproximou as apresentações e estimulou o debate sobre o que há de novo no capitalismo de plataformas. Entre as questões levantadas estiveram as relações entre trabalho, mineração de dados, atividades financeiras e o papel dos clientes nas relações mediadas pelas plataformas.

Em conjunto, as discussões do dia 26 evidenciaram que compreender o trabalho na era digital exige articular diferentes dimensões do fenômeno. Tempo, aceleração, disponibilidade, gestão algorítmica, organização da produção, precarização, relações de trabalho e disputas entre capital e trabalhadores apareceram como questões centrais para interpretar as transformações em curso. A segunda sessão reforçou, assim, a proposta do Eixo 5 de construir um espaço de interlocução teórica sobre as mudanças contemporâneas no mundo do trabalho.

 

Continuidade da programação

Com a realização das duas mesas, o I Seminário do Eixo 5 avançou em seu primeiro ciclo de debates, que terá continuidade em 9 de setembro. A programação seguirá reunindo pesquisadores de diferentes instituições e perspectivas para aprofundar a reflexão sobre o trabalho digital, suas formas de organização e as novas configurações das relações entre tecnologia, capital e trabalho.

As inscrições permanecem abertas ao longo do período do evento por meio do formulário oficial: https://forms.gle/GPXPJ3v63sa23K8z5.

Encontro de Ciências Sociais da UFCG promove lançamento de livros com participação de pesquisadores do INCT Trabalho

Encontro de Ciências Sociais da UFCG promove lançamento de livros com participação de pesquisadores do INCT Trabalho

A programação do V Encontro de Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), realizado entre 9 e 11 de setembro de 2026, contou com uma sessão especial de lançamento de livros no Centro de Extensão José Farias. A atividade reuniu pesquisadores em torno de publicações recentes dedicadas a questões centrais das ciências sociais contemporâneas, com destaque para os debates sobre trabalho e inteligência artificial.

Entre as obras apresentadas esteve Diálogos críticos: el pensamiento extranjero y la sociología del trabajo en América Latina, organizado por Roberto Véras de Oliveira, José Ricardo Ramalho e Maria Aparecida Bridi. Publicado pela CLACSO, o livro reúne pesquisadores de diversos países e propõe uma reflexão sobre a constituição da sociologia do trabalho latino-americana a partir de seus diálogos com diferentes tradições do pensamento social internacional.

A publicação possui uma vinculação especialmente significativa com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Estratégias de Emancipação e Superação da Precariedade (INCT Trabalho): seus três organizadores — Roberto Véras de Oliveira, José Ricardo Ramalho e Maria Aparecida Bridi — são membros do Comitê Gestor do Instituto. O livro expressa, assim, uma perspectiva de interlocução internacional e latino-americana que também ocupa lugar importante nas atividades de pesquisa e formação desenvolvidas pelo INCT Trabalho.

A sessão contou ainda com o lançamento de Artificial Intelligence & the Future of Humanity, organizado por M. Mustafa Erdoğdu, Edgar Zayago Lau e Armida Concepción García. A obra aborda um dos debates mais urgentes da atualidade, examinando as implicações da inteligência artificial e das transformações tecnológicas para as sociedades contemporâneas e para o futuro da humanidade.

A participação de Armida Concepción García reforçou as conexões internacionais da atividade. Pesquisadora mexicana e colaboradora internacional do INCT Trabalho, Armida integra redes de cooperação acadêmica que aproximam pesquisadores brasileiros e estrangeiros em torno das transformações do trabalho, da digitalização e de seus impactos sociais

Realizados conjuntamente, os lançamentos evidenciaram duas frentes de reflexão que se cruzam na agenda contemporânea das ciências sociais: de um lado, a necessidade de recuperar criticamente as tradições intelectuais que contribuíram para interpretar o trabalho na América Latina; de outro, o desafio de compreender as rápidas transformações produzidas pela inteligência artificial e pelas tecnologias digitais. A sessão constituiu, assim, um espaço de divulgação científica, intercâmbio internacional e fortalecimento das redes acadêmicas vinculadas à UFCG e ao INCT Trabalho.

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INCT Trabalho debate teorias críticas e transformações laborais na era digital

INCT Trabalho debate teorias críticas e transformações laborais na era digital

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) deu início, no dia 24 de agosto, à primeira sessão do I Seminário do Eixo 5, intitulado “Contribuições teóricas sobre o trabalho na era digital”. Transmitido virtualmente, o encontro reuniu docentes, discentes e especialistas para debater os impactos das inovações organizacionais, do avanço das plataformas e da reorganização produtiva nas relações laborais contemporâneas.

O ciclo de debates integra o Eixo 5 do projeto (“Os efeitos das inovações organizacionais e tecnológicas no mercado de trabalho”), que prevê uma série de sessões ao longo de cinco anos. A atividade inaugural articulou seis pesquisadores em duas mesas temáticas, aprofundando modelos conceituais para apreender a complexidade da digitalização econômica.

Mesa 1: Financeirização, infraestrutura material e desconstrução do “mercado de trabalho”

Com coordenação de Jacob Carlos Lima (UFSCar), a primeira mesa discutiu os fundamentos macroeconômicos e estruturais do trabalho no capitalismo digital.

  • Marcelo Manzano (Unicamp) abordou o tema “Financeirização, plataformização e exploração da força de trabalho”. O economista destacou paradoxos do modelo corporativo contemporâneo, como a acelerada valorização de mercado das big techs em contraste com prejuízos operacionais persistentes. Manzano explicou que o trabalhador plataformizado passa a ser tratado contabilmente como um ativo (e não mais passivo) pelas corporações na medida em que os riscos econômicos e trabalhistas são integralmente transferidos aos indivíduos. Ele detalhou as cinco camadas de valorização do capital em plataformas: exploração direta da mais-valia, mineração de dados, arbitragem regulatória, subsunção do trabalho servil/doméstico e cercamentos digitais articulados ao capital fictício.

  • Jörg Nowak (UnB) e Gabriel Teles (UnB) apresentaram em conjunto a exposição “Sobre o conceito do capital digital”. Nowak iniciou desmistificando o impacto da inteligência artificial e da automação sobre os ganhos gerais de produtividade, demonstrando que os aumentos expressivos se concentram em uma fatia restrita de empresas de ponta (as chamadas empresas da fronteira), enquanto a produtividade média permanece estagnada. Dando sequência à análise, Teles sustentou que o capital digital não pode ser reduzido a "ativos intangíveis". Pelo contrário, apoia-se em uma densa base material e industrial — como fábricas de semicondutores (chips), cabos de fibra ótica e data centers de alta demanda energética. Para os pesquisadores, o diferencial dessas grandes corporações reside no comando estratégico e na capacidade de coordenar infraestruturas materiais, dados e circuitos produtivos alheios, gerando novas dependências econômicas.

 

  • Roberto Véras de Oliveira (UFPB) apresentou a reflexão “‘Mercado de trabalho’ e trabalho plataformizado: reflexões polanyianas, feministas e latino-americanas”. O pesquisador colocou em questão a própria categoria convencional de "mercado de trabalho", argumentando que a noção de um espaço neutro e autorregulado oculta a mercadorização fictícia da vida e nunca deu conta da realidade periférica. Apoiando-se na economia feminista e no pensamento social latino-americano, Véras demonstrou como as plataformas digitais intensificam a mercantilização ao converter recursos e tempos domésticos em trabalho sob demanda. Ele ressaltou que esse processo é mediado por contramovimentos de resistência, pela familiarização (em que a família absorve custos de manutenção de veículos, celulares e acidentes) e pela mutualização (redes de solidariedade entre os próprios trabalhadores).

 

Mesa 2: Economia política das plataformas, tipologias e novas pedagogias neoliberais

Sob a mediação de Ricardo Colturato Festi (UnB), a segunda mesa dedicou-se à sistematização de categorias conceituais, à análise de controvérsias e às tipificações empíricas do trabalho por plataformas.

  • Maria Aparecida Bridi (UFPR) apresentou a conferência “Capitalismo de plataformas”. A socióloga estruturou o campo teórico em quatro grandes eixos: a economia política das corporações digitais e mercados proprietários; a datificação e vigilância comportamental; o processo de trabalho e gestão algorítmica opaca; e a dependência tecnológica na divisão internacional do trabalho. Bridi também discutiu o conceito de endogeneização, ressaltando que modelos de negócios globais não encontram realidades sociais uniformes. Na América Latina, a plataformização não inaugurou a precariedade, mas acoplou-se a traços históricos de informalidade, heterogeneidade estrutural e estratégias de sobrevivência.

 

  • Julice Salvagni (UFRGS) encerrou as apresentações debatendo “Conceitos e tipologias de plataformas digitais”. A professora delimitou as distinções conceituais entre trabalho digital amplo e trabalho por plataformas, sublinhando que o traço fundante deste último é a ausência e negação de vínculo empregatício e de direitos. Salvagni distinguiu ainda o trabalho local ("de rua", como motoristas e entregadores) e o trabalho em nuvem (cloud work, como moderadores de conteúdo, treinadores de IA e trabalhadores em fazendas de clique remunerados por frações de centavo). Por fim, chamou a atenção para o avanço de uma "pedagogia neoliberal" nas redes sociais, na qual influenciadores e mentores ensinam estratégias de trabalho e inculcam a racionalidade do autogerenciamento subordinado.

 

Continuidade da programação

As reflexões teóricas apresentadas na primeira sessão reforçam o compromisso do INCT Trabalho em consolidar redes internacionais de pesquisa e subsidiar o debate público sobre a regulação do trabalho e a garantia de direitos sociais frente às transformações tecnológicas.

A programação do I Seminário do Eixo 5 terá continuidade com as próximas sessões temáticas nos dias 26 de agosto e 9 de setembro, sempre das 9h às 13h30.

As inscrições permanecem abertas ao longo do período do evento por meio do formulário oficial: https://forms.gle/GPXPJ3v63sa23K8z5.

INCT Trabalho, Inclusão e Equidade encerra I Seminário do Eixo 5 com debates sobre datificação, automação e transformações do trabalho

INCT Trabalho, Inclusão e Equidade encerra I Seminário do Eixo 5 com debates sobre datificação, automação e transformações do trabalho

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Trabalho, Equidade e Inclusão realizou, na quarta-feira (9), o terceiro e último encontro do I Seminário do Eixo 5: Contribuições teóricas sobre o trabalho na era digital. Realizado de forma virtual, o evento reuniu pesquisadores(as), docentes, estudantes e demais interessados para discutir as transformações contemporâneas do trabalho diante da expansão das tecnologias digitais, da datificação, da automação e da inteligência artificial.

A programação foi organizada em duas mesas.

  • A Mesa 5: contou com as exposições de Roseli Aparecida Fígaro Paulino (USP), sobre “Datificação do trabalho: a captura das materialidades sensíveis”, e Sidartha Soria (UFPE), com o tema “Automação e produtividade no mundo do trabalho digital”. A mediação foi realizada por Mariana Shinohara Roncato (UFPB).
  • Mesa 6: reuniu Julio César Neffa (CLACSO) sobre “Inovações tecnológicas e processo de trabalho” e Jonas Valente (Universidade de Oxford) com o tema “Possibilidades e limites do conceito de trabalho digital”. A mediação foi realizada por Aline Suelen Pires (UFSCar).

Na Mesa 5, Roseli Fígaro problematizou o chamado “deslumbramento tecnológico”, dialogando com a contribuição de Álvaro Vieira Pinto. Para a pesquisadora, tecnologia e trabalho devem ser compreendidos a partir das relações sociais e históricas que os constituem, e não como fenômenos autônomos.

Em sua exposição, Fígaro apresentou a ideia de uma cadeia produtiva digital de dados e destacou a concentração econômica e o poder associado às grandes empresas que controlam infraestruturas, plataformas e dados. Um dos eixos centrais de sua fala foi o conceito de “materialidades sensíveis”, utilizado para compreender a captura do trabalho vivo em tempo real. Gestos, ações cognitivas, interações e saberes mobilizados durante a atividade podem ser registrados e transformados em dados por softwares e sistemas de gestão. Ao final, defendeu governança democrática dos dados, transparência sobre sua coleta e utilização e participação dos trabalhadores e de suas organizações na definição de seus usos.

 

 

Em seguida, Sidartha Soria analisou a automação e a produtividade a partir de uma leitura crítica de Marx. O pesquisador chamou atenção para o paradoxo de tecnologias capazes de reduzir o tempo necessário à produção, mas que, sob relações capitalistas, podem resultar em intensificação do trabalho, ampliação das jornadas e novas formas de exploração. Ao discutir a inteligência artificial como uma nova modalidade de maquinaria, destacou que seu funcionamento depende continuamente de trabalho humano, desde a concepção e programação até a coleta, seleção, anotação e alimentação de dados.

Soria também problematizou a ideia de que o aumento da produtividade conduziria automaticamente à emancipação do trabalho. Em sua análise, a IA pode concentrar em um único trabalhador tarefas antes distribuídas entre diferentes profissionais, ampliando responsabilidades e carga mental. A discussão destacou, assim, a necessidade de compreender a tecnologia em relação às formas sociais que orientam sua produção e utilização.

 

 

A Mesa 6 aprofundou a discussão a partir de uma perspectiva histórica e conceitual. Julio César Neffa apresentou uma análise da evolução dos processos de trabalho no capitalismo, relacionando as transformações tecnológicas à busca pela redução do tempo de trabalho socialmente necessário e pela redução de custos. Ao recuperar momentos como a divisão do trabalho, o taylorismo e o fordismo, destacou continuidades e mudanças que ajudam a compreender as formas atuais de organização do trabalho.

Ao abordar a inteligência artificial, Neffa ressaltou que a IA pode ampliar capacidades humanas, contribuir para a inovação e liberar tempo para atividades criativas, mas também pode ser utilizada para substituir trabalhadores e reduzir custos salariais. Para o pesquisador, um elemento fundamental para que seus efeitos sejam favoráveis aos trabalhadores é a democracia econômica, com participação dos trabalhadores nas decisões sobre a adoção das novas tecnologias. Também chamou atenção para os impactos das transformações tecnológicas sobre a saúde psíquica e mental, destacando ansiedade, estresse e sofrimento relacionados à organização do trabalho.

 

 

Encerrando as exposições, Jonas Valente problematizou o conceito de “trabalho digital”. Em vez de tratá-lo como uma categoria capaz de explicar, por si só, diferentes fenômenos, propôs compreendê-lo como um campo de estudos sobre trabalho e digitalização, abrangendo processos de trabalho influenciados pelas tecnologias digitais. O pesquisador ressaltou ainda que a economia digital possui forte dimensão material, envolvendo infraestrutura, data centers, dispositivos, minerais e outras condições concretas de produção.

Valente também discutiu a relação entre trabalho, consumo e plataformas digitais, destacando formas de externalização de custos e de realização de atividades não remuneradas, como os períodos de espera de trabalhadores de plataformas e tarefas realizadas no trabalho remoto. O debate apontou, ainda, para a necessidade de distinguir trabalho, consumo e lazer, observando como essas esferas se relacionam e se transformam no contexto da digitalização.

 

 

Ao longo das duas mesas, as exposições e os debates evidenciaram que a digitalização não constitui um fenômeno exclusivamente técnico: ela envolve relações de poder, formas de organização da produção, disputas sobre o controle dos dados e diferentes possibilidades de apropriação social das tecnologias. As mediações de Mariana Roncato e Aline Pires contribuíram para articular as exposições e estimular o diálogo com questões apresentadas pelo público.

 

 

Nesse sentido, o último encontro reafirmou a importância de uma abordagem crítica capaz de articular inovação tecnológica, relações de trabalho e experiências dos trabalhadores. Com a realização das Mesas 5 e 6, foi encerrada a programação do I Seminário do Eixo 5, consolidando um espaço de diálogo sobre os desafios teóricos e empíricos colocados pelas transformações digitais e suas implicações para o trabalho contemporâneo. 

 

Membros do Comitê Gestor do INCT Trabalho participam do Seminário “Indicadores de Trabalho Decente”

Membros do Comitê Gestor do INCT Trabalho participam do Seminário “Indicadores de Trabalho Decente”

Promovida pelo Observatório do Trabalho Decente do Poder Judiciário, a atividade reuniu representantes do CNJ, OIT, MTE, DIEESE, CESIT/Unicamp, IESP-UERJ, TST/CSJT, Instituto Ethos, MPT e INCT Trabalho para discutir indicadores capazes de orientar políticas de promoção do trabalho decente.

Quatro integrantes do Comitê Gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) participaram, em 14 de agosto de 2026, do Seminário “Indicadores de Trabalho Decente”, promovido pelo Observatório do Trabalho Decente do Poder Judiciário. Renata Queiroz Dutra coordenou a atividade; José Dari Krein e Adalberto Cardoso estiveram entre os expositores; e Roberto Véras de Oliveira participou como debatedor. Realizado em formato híbrido, das 9h às 12h e das 14h às 17h, o encontro teve caráter de reunião de trabalho e reuniu pesquisadores, gestores e representantes de instituições com reconhecida atuação na produção de dados e estudos sobre o mundo do trabalho.

 

Seminário foi realizado em formato híbrido, com participantes presenciais e remotos. Reprodução: CNJ.

Organizado pelo Eixo 1 do Observatório - Produção, Sistematização e Análise de Dados e Pesquisas -, o seminário teve como objetivo compartilhar iniciativas de formulação de indicadores de trabalho decente, mapear esforços teóricos e metodológicos já realizados e identificar possibilidades de atualização e aperfeiçoamento. A finalidade mais ampla é subsidiar a construção de uma matriz de indicadores destinada ao monitoramento e à avaliação das ações de promoção e proteção do trabalho decente no Sistema de Justiça.

O Observatório foi instituído pela Portaria da Presidência do CNJ nº 412/2025. A Portaria nº 53/2026, posteriormente atualizada, definiu sua composição, reunindo centrais sindicais, confederações patronais, organizações de trabalhadores, universidades, centros de pesquisa e entidades como OIT e DIEESE. O colegiado é supervisionado pela ministra do Tribunal Superior do Trabalho Kátia Magalhães Arruda. O Comitê Diretivo inclui representantes do CNJ, CSJT, MPT, MTE, Instituto Ethos, Fórum das Centrais Sindicais e da universidade pública, entre eles Renata Dutra.

Na abertura, a juíza auxiliar da Presidência do CNJ Gabriela Lenz de Lacerda situou a iniciativa entre as prioridades da gestão 2025-2027 do Conselho, que elegeu o trabalho decente e a vida digna como um de seus eixos. Ela explicou que o plano do Observatório está organizado em seis frentes: dados, pesquisas e indicadores; aperfeiçoamento da jurisdição; formação e capacitação; diálogo social e articulação interinstitucional; boas práticas; e desenvolvimento da política. Em vez de “inventar a roda”, acrescentou, o Eixo 1 iniciou um mapeamento do conhecimento, das bases de dados, dos repositórios e das metodologias já existentes.

Renata Dutra, integrante do Comitê Diretivo e coordenadora do Eixo 1, conduziu as duas sessões. Segundo ela, a construção de indicadores constitui um dos maiores desafios do Observatório, devido à amplitude e às controvérsias que cercam o conceito de trabalho decente. A estratégia adotada foi conhecer o estado da arte, avaliar as iniciativas disponíveis e verificar se o CNJ deverá formular novos instrumentos ou combinar experiências consolidadas para atender às particularidades do Poder Judiciário.

OIT e MTE abrem a programação

 

Na sessão da manhã, José Ribeiro apresentou a trajetória da Organização Internacional do Trabalho na formulação e aplicação de indicadores no Brasil. O conceito de trabalho decente articula quatro objetivos estratégicos: promoção dos direitos no trabalho, geração de mais e melhores empregos, extensão da proteção social e fortalecimento do diálogo social. Seus déficits aparecem na insuficiência e má qualidade dos empregos, na proteção social inadequada, na negação de direitos - como trabalho infantil, trabalho análogo à escravidão e discriminações - e nas fragilidades de representação e diálogo, sempre atravessadas pelas desigualdades de gênero e raça.

Ribeiro recuperou experiências acumuladas desde 2009, incluindo perfis nacionais, estaduais e municipais, iniciativas relacionadas à Agenda 2030 e aplicações recentes na II Conferência Nacional do Trabalho. Também colocou uma questão central para o seminário: é preferível trabalhar com um conjunto de indicadores ou construir um índice sintético? Para a OIT, os instrumentos precisam identificar déficits, permitir comparações no tempo e no território e apoiar políticas, sem ocultar as diferentes dimensões que compõem a qualidade do trabalho.

 

Apresentação da OIT destacou os déficits de trabalho decente e sua relação com desigualdades e exclusões. Reprodução: gravação do seminário.

 

Paula Montagner expôs como o Ministério do Trabalho e Emprego utiliza informações e indicadores na gestão, no planejamento e no acompanhamento de seus resultados. A apresentação destacou a necessidade de transformar registros administrativos em conhecimento útil, articulando dados sobre inspeção, segurança e saúde, qualificação, aprendizagem, relações de trabalho e proteção ao trabalhador. Também relacionou esse esforço ao diagnóstico produzido para a II Conferência Nacional do Trabalho. Os comentários da manhã foram feitos principalmente por Caio Magri, do Instituto Ethos, e Camila Rocha, da Secretaria de Pesquisa Judiciária do TST/CSJT. O debate ressaltou a necessidade de indicadores transparentes, territorializados e orientados a decisões, além de maior integração entre dados do Executivo e registros processuais do Judiciário.

DIEESE e CESIT apresentam experiências de mensuração

 

À tarde, Adriana Marcolino, diretora técnica do DIEESE, apresentou um conjunto articulado de experiências: observatórios locais e regionais do mercado de trabalho, o Índice da Condição do Trabalho (ICT), repositórios de estudos e metodologias e publicações periódicas. Os observatórios, explicou, não se limitam a divulgar números: produzem análises, apoiam políticas de emprego, trabalho e renda e estimulam a articulação entre governos, sindicatos, universidades e organizações sociais.

O ICT foi criado para oferecer uma visão mais abrangente que a taxa de desemprego. Calculado a partir da PNAD Contínua, combina três dimensões - inserção ocupacional, desocupação e rendimento - e oito indicadores, como formalização, contribuição previdenciária, permanência no emprego, desalento, duração da procura por trabalho, rendimento por hora e distribuição dos rendimentos. Marcolino também advertiu que um Observatório precisa combinar indicadores, estudos qualitativos, acompanhamento de tendências e capacidade de identificar fenômenos emergentes, com atenção às desigualdades territoriais e aos recortes de gênero, raça e outros marcadores.

 

Adriana Marcolino apresentou experiências do DIEESE com observatórios, índice, repositórios e estudos periódicos. Reprodução: gravação do seminário.

Em seguida, José Dari Krein, Arthur Welle e Adalberto Cardoso apresentaram a pesquisa “Por um Índice de Desenvolvimento Humano no Trabalho”, desenvolvida no CESIT/Unicamp em parceria com o Ministério Público do Trabalho. Krein ressaltou que o projeto nasceu da preocupação com a perda de centralidade do trabalho no debate público e produziu instrumentos complementares: um conjunto amplo de indicadores, um índice multidimensional de privações e um índice sintético. A proposta pretende facilitar a comunicação social sem reduzir a realidade do trabalho a um único número.

Arthur Welle detalhou o índice multidimensional de privações, que permite identificar a proporção de trabalhadores submetidos a carências e a intensidade dessas privações, além de decompor os resultados por dimensão, território e grupo social. Adalberto Cardoso apresentou o Índice de Desenvolvimento Humano no Trabalho, construído a partir de dimensões inspiradas no trabalho decente, mas voltado a captar processos estruturais de mais longo prazo. O índice agrega variáveis normalizadas, selecionadas por procedimentos estatísticos e ponderadas de maneira uniforme, permitindo comparações temporais e territoriais. Cardoso destacou que o indicador sintético serve sobretudo para chamar a atenção para tendências e problemas; a formulação de políticas exige abrir o índice e examinar seus componentes.

 

Dari Krein, Arthur Welle e Adalberto Cardoso expuseram a proposta de um Índice de Desenvolvimento Humano no Trabalho. Reprodução: gravação do seminário.

Indicadores precisam conduzir à ação

 

No debate da tarde, o procurador Luís Fabiano de Assis, coordenador da plataforma SmartLab, ponderou que índices sintéticos comunicam tendências, mas não respondem sozinhos onde e como intervir. Sugeriu que o CNJ relacione indicadores aos déficits sobre os quais o Judiciário pode agir, incluindo mapas territoriais dos conflitos laborais, efetividade da execução, pagamento de créditos reconhecidos e dados dos programas de combate ao trabalho infantil e ao trabalho escravo.

Roberto Véras destacou que um observatório deve ser entendido como uma arquitetura integrada de informação e conhecimento, articulando indicadores, repositórios, pesquisas, análises qualitativas e monitoramento de fenômenos emergentes. Avaliou que o índice apresentado tem potencial para reposicionar o trabalho no debate público, comparar períodos e territórios e orientar novas agendas de pesquisa. Ao mesmo tempo, propôs aprofundar a incorporação das desigualdades, produzir desagregações por gênero, raça e território e construir legitimidade científica, institucional e política para que o instrumento se converta em referência pública.

Ao encerrar, Renata Dutra afirmou que as experiências e controvérsias debatidas ampliarão o repertório do Observatório e serão sistematizadas em relatório. A expressiva participação do INCT Trabalho - por meio de Renata Dutra, Dari Krein, Adalberto Cardoso e Roberto Véras - evidencia a convergência entre a agenda do Instituto e a iniciativa do CNJ: produzir diagnósticos rigorosos sobre o mundo do trabalho, aperfeiçoar metodologias e transformar conhecimento científico em subsídio para políticas públicas comprometidas com inclusão, equidade, direitos e trabalho decente.

 

GT 82 da CLACSO define agenda de pesquisas em reunião durante Congresso da ALAST.

GT 82 da CLACSO define agenda de pesquisas em reunião durante Congresso da ALAST.

O Grupo de Trabalho 82 da CLACSO — “Trabajo, configuraciones productivas, servicios y actores laborales” — realizou, no dia 4 de setembro, uma reunião presencial em Guadalajara, no México, no marco do XI Congresso da Associação Latino-Americana de Estudos do Trabalho (ALAST). O encontro reuniu dezenas de pesquisadores de diferentes países da América Latina e marcou o início de uma nova etapa de atividades do GT para o período 2026–2028.

A reunião foi coordenada por Marcela Hernández, Maria Aparecida Bridi e Francisco Pucci. Durante o encontro, Pucci foi apresentado e recebeu as boas-vindas como novo integrante da coordenação do GT. Também foram acolhidos pesquisadores cujos trabalhos têm como uma de suas preocupações os estudos sobre saúde do trabalhador, ampliando a diversidade de temas e abordagens presentes no grupo.

A atividade contou ainda com a participação de integrantes do comitê executivo, entre eles José Ricardo Ramalho, Roberto Véras de Oliveira, Andrea Delfino e Maria Aparecida Bridi, pesquisadores que também integram o INCT-Trabalho. Maria Julia Acosta, Juan Morales, Juan Ospina e Patrícia Félix também compõem o comitê executivo do GT 82.

Entre os participantes do encontro estão pesquisadores que também integram o INCT-Trabalho, como Maria Aparecida Bridi, José Ricardo Ramalho, Roberto Véras de Oliveira e Andrea Delfino. A presença desses pesquisadores em diferentes redes e espaços de cooperação contribui para ampliar o intercâmbio acadêmico e a circulação de agendas de pesquisa sobre as transformações do trabalho na América Latina.

Pesquisa articulada em rede

Além da apresentação do grupo e de seus integrantes, a reunião foi dedicada à discussão da agenda de atividades prioritárias para o novo período. Um dos principais objetivos é colocar em diálogo as pesquisas atualmente desenvolvidas pelos membros do GT, organizando essa interlocução a partir de três eixos de investigação.

A proposta é aproximar pesquisas realizadas em diferentes países, identificar questões e problemas comuns e criar condições para análises comparativas sobre as transformações do trabalho na América Latina. Mais do que reunir investigações individuais, o objetivo é fortalecer sua articulação em uma agenda coletiva de pesquisa.

Essa perspectiva está relacionada à própria concepção do GT como rede latino-americana de pesquisadores, voltada à produção de conhecimento sobre as transformações do trabalho a partir das especificidades da região. A agenda prevê, assim, ampliar o intercâmbio entre os integrantes e construir espaços de discussão conjunta sobre pesquisas em andamento, abordagens teórico-metodológicas e resultados empíricos.

Entre as prioridades apresentadas está o fortalecimento da cooperação entre pesquisadores de diferentes gerações, instituições e países, de modo a favorecer tanto a circulação das pesquisas quanto a construção de investigações articuladas sobre as novas configurações produtivas, os serviços e os atores laborais.

A reunião em Guadalajara também deu continuidade à trajetória do GT na constituição de uma rede interdisciplinar de estudos do trabalho na América Latina, agora com uma nova composição da coordenação e uma agenda voltada a aprofundar a produção coletiva e o diálogo entre pesquisas desenvolvidas em diferentes contextos nacionais.

Bolsistas do INCT Trabalho se reúnem na UFCG

Bolsistas do INCT Trabalho se reúnem na UFCG

As bolsistas recém-integradas à Equipe de Apoio à Pesquisa do INCT Trabalho, Ana Carla Souto (doutorado), Hannelyn Souto Melo e Beatriz Vitória (ambas de iniciação científica), reuniram-se, na tarde de 13 de agosto, na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com Roberto Véras, coordenador do INCT Trabalho, e Mário Ladosky, coordenador do Núcleo de Pesquisa Trabalho, Desenvolvimento e Políticas Públicas (TDEPP/UFCG). Também participou do encontro a docente e pesquisadora do TDEPP Maylle Benício.

 

 

A reunião proporcionou uma apresentação mais detalhada dos participantes e de suas trajetórias acadêmicas e de pesquisa. Na ocasião, foi retomada a trajetória do TDEPP e apresentada a proposta do INCT Trabalho, com destaque para seus objetivos, sua organização e suas principais frentes de atuação.

 

 

O encontro avançou, ainda, na identificação de possibilidades de maior integração entre o TDEPP e o INCT Trabalho, bem como das formas de engajamento das novas bolsistas nas atividades de pesquisa, formação e intercâmbio promovidas pelas duas iniciativas. Ao final, foram destacadas as agendas mais imediatas do TDEPP e do INCT Trabalho e discutidas as possibilidades de participação das bolsistas nessas atividades.