O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho) participou do IX Encontro da Rede Nacional de Pesquisas e Estudos em Direito do Trabalho e da Seguridade Social (RENAPEDTS), sob a organização do professor Sidnei Machado (UFPR) e equipe, com a presença de integrantes de seu Comitê Gestor: Adalberto Moreira Cardoso (IESP/UERJ), Renata Dutra (UnB), José Dari Krein (CESIT/Unicamp) e Maria Aparecida Bridi (UFPR). Realizado nos dias 27 e 28 de agosto no Prédio Histórico da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, o encontro reuniu pesquisadores das áreas jurídica, sociológica e econômica para debater questões relacionadas à regulação do trabalho, às desigualdades e ao papel das instituições democráticas no Brasil.

A programação incluiu debates sobre crise climática, transformações do trabalho e desafios teóricos e metodológicos para a pesquisa, temas que também integram a agenda de investigação do INCT-Trabalho.
A programação da manhã do dia 28 de agosto foi aberta com a conferência "Trabalho e crise climática: por uma sociologia ecológica do trabalho", ministrada por Adalberto Moreira Cardoso, integrante do Comitê Gestor do INCT-Trabalho, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET) e professor do IESP/UERJ. Com coordenação de Magda Barros Biavaschi (Unicamp) e mediação de Carlos Eduardo Soares Freitas (UFBA), a exposição abordou as urgências socioambientais contemporâneas e a necessidade de incorporar a dimensão da transição ecológica às análises sobre os modelos produtivos e a garantia de direitos sociais.

Em sua apresentação, Adalberto Cardoso propõe o conceito de crise ecológica do trabalho para compreender de que modo a crise climática deixa de ser apenas um fator externo que afeta determinados setores econômicos e passa a incidir sobre as próprias condições que tornam o trabalho possível. Partindo da concepção marxiana do trabalho como metabolismo entre sociedade e natureza e dialogando com autores da ecologia marxista, dos Environmental Labour Studies e da ecologia política, o argumento sustenta que a instabilidade das condições biofísicas produzida pela acumulação capitalista afeta simultaneamente a realização da atividade laboral e a reprodução social das capacidades de trabalho. O conceito é desenvolvido por meio de cinco movimentos: as perturbações ambientais reduzem ou reorganizam a capacidade de trabalhar; elevam os custos de reprodução da força de trabalho; esses custos são redistribuídos entre empresas, Estado, famílias e comunidades; seus efeitos variam conforme classe, gênero, raça, território e regime de emprego; e sua distribuição torna-se objeto de conflito e organização coletiva.
Essa dinâmica é analisada por meio de três mediações centrais — corpo, infraestrutura e cuidado — que mostram como calor, poluição, eventos extremos e degradação ambiental atravessam tanto o processo de trabalho quanto a reprodução cotidiana da vida. A crise ecológica do trabalho, porém, não produz apenas vulnerabilidade: ela também abre um campo de resistências, expresso nas lutas por justiça ambiental e climática, no ecologismo dos pobres e nas disputas em torno da transição justa. O caso brasileiro evidencia esses mecanismos nas relações entre calor, informalidade e trabalho por plataformas, nos efeitos das enchentes sobre infraestrutura e reprodução social e nos conflitos territoriais da Amazônia e do Pantanal. A proposta, assim, amplia a sociologia do trabalho ao incorporar as condições ecológicas como dimensão constitutiva da exploração, da precariedade, da desigualdade e da reprodução social no século XXI.
Na sequência, a Mesa Especial "Desafios epistemológicos sobre trabalho, desigualdades e instituições no Brasil", coordenada por Jorge Luiz Souto Maior (USP) e mediada por Valdete Souto Severo (UFRGS), reuniu três integrantes do Comitê Gestor do INCT-Trabalho — Renata Dutra (UnB), José Dari Krein (CESIT/Unicamp) e Maria Aparecida Bridi (UFPR) —, além de João Victor Marques da Silva (UFPE). As intervenções discutiram diferentes questões teóricas e metodológicas envolvidas na produção de conhecimento sobre o trabalho e as desigualdades no país. Nesta mesa, João Victor Marques da Silva, abordou o papel das relações raciais na construção da forma jurídica da exploração do trabalho no Brasil.

Renata Dutra, em sua fala, apresentou alguns dos desafios teóricos e metodológicos para o enfrentamento das questões relativas às desigualdades no mundo do trabalho. Com foco nos desafios específicos do Direito do Trabalho, apontou a existência de duas abordagens das desigualdades.
Primeiro, o resgate e a afirmação constante daquela desigualdade que é a premissa do Direito do Trabalho, ou seja, a desigualdade de classes e que enseja a imperativa intervenção contratual na relação assimétrica entre trabalhador e tomador de serviços.
Segundo, a necessidade de contemplar outros marcadores de desigualdades, abordando-os interseccionalmente, de modo a levá-los a sério, ou seja, considerá-los não apenas no diagnóstico, mas na reconstrução estrutural do Direito do Trabalho. Aqui estariam contemplados os marcadores de raça, gênero, sexualidade, idade/geração, origem, entre outros.
Cada uma dessas abordagens enfrenta desafios metodológicos próprios, uma vez que, primeiro, há uma intensa disputa ideológica quanto ao reconhecimento das vulnerabilidades da classe trabalhadora e de sua demanda por proteção social, em um contexto no qual avançam os discursos do empreendedorismo e do individualismo, bem como as perspectivas biográficas e as soluções violentas propostas pela extrema direita para o enfrentamento das questões sociais. Adicione-se a esse cenário a captura das instituições, inclusive jurisdicionais, no que diz respeito à flexibilização do Direito do Trabalho e à autonomia contratual.
Por outro lado, em relação aos marcadores transversais, há o desafio de construir aparatos teórico-metodológicos próprios à sua adequada compreensão, que possam capturá-los e não subestimá-los na estruturação das relações sociais. Assim, compreender os desafios que o racismo impõe à construção de sujeitos de direitos trabalhistas, bem como assimilar o cuidado como trabalho de forma central, entre outros marcadores, sugere a necessidade de reformular premissas, instrumentos e abordagens das pesquisas.
Pesquisa orientada pela realidade e pelas evidências
Em sua exposição, intitulada "Desafios epistemológicos sobre trabalho, desigualdades e instituições no Brasil: empiria, história, teoria e transformação social", José Dari Krein (CESIT/Unicamp) discutiu caminhos metodológicos para compreender uma realidade do trabalho marcada por mudanças e permanências. Sua reflexão articulou quatro dimensões — empiria, história, teoria e transformação social — e defendeu a centralidade do trabalho para a análise de temas como desenvolvimento, democracia e sustentabilidade.
Krein destacou a necessidade de compreender as transformações em curso sem perder de vista permanências estruturais das relações de trabalho. Segundo o pesquisador, novas formas de organização e mediação do trabalho não eliminam necessariamente relações de exploração, assimetrias de poder ou formas de subordinação. Fenômenos como a pejotização, o trabalho por plataformas, a gestão por algoritmos e a inteligência artificial também evidenciam, em sua análise, a necessidade de uma abordagem interdisciplinar, capaz de articular Economia, Sociologia, Ciência Política e Direito.
Ao tratar da relação entre teoria e evidências empíricas, Krein recuperou o que denominou "atitude Conceição Tavares": partir da descrição rigorosa da realidade e de sua formação histórica antes de enquadrá-la em modelos teóricos previamente definidos. Ao defender a importância de "amar os dados", ressaltou a necessidade de rever interpretações quando as evidências contrariam hipóteses iniciais.
O pesquisador também abordou o papel das instituições, entendidas como resultados de processos históricos e, ao mesmo tempo, espaços de disputa social. Por fim, destacou experiências de pesquisa em rede, como os INCTs e os CEPIDs, como formas de organizar a investigação a partir de problemas complexos e aproximar a produção de diagnósticos da formulação de políticas públicas.
Categorias analíticas diante das transformações do trabalho
Em sua participação na mesa, Maria Aparecida Bridi discutiu os desafios envolvidos na interpretação das transformações contemporâneas do trabalho. A reflexão partiu de uma questão central: em que medida as categorias utilizadas pela pesquisa ajudam a compreender as mudanças em curso ou podem ocultar dimensões relevantes da realidade social. A pesquisadora defendeu, nesse contexto, a centralidade do trabalho como categoria explicativa da sociedade brasileira.
Bridi chamou atenção para dois riscos analíticos: a "cegueira diante da mudança" e o "fascínio pela novidade". O primeiro ocorre quando categorias analíticas são aplicadas de forma rígida, sem considerar sua historicidade e as transformações da realidade social; o segundo, quando novos arranjos produtivos ou tecnológicos são tomados automaticamente como rupturas, obscurecendo relações e mecanismos que permanecem. No caso das plataformas digitais, por exemplo, denominações como "parceiro", "colaborador" ou "empreendedor", segundo a pesquisadora, precisam ser confrontadas com as condições concretas de trabalho, incluindo assimetrias de poder, dependência econômica e transferência de riscos.
A pesquisadora também problematizou interpretações deterministas sobre a tecnologia, retomando estudos realizados em montadoras de automóveis no Paraná. Mesmo em plantas altamente automatizadas, persistiam conflitos relacionados ao ritmo de trabalho, ao banco de horas e ao desgaste físico, indicando a necessidade de considerar as relações sociais e de poder nas quais as tecnologias são introduzidas.
Outro eixo da exposição foi a crítica à individualização de problemas sociais e ao caráter não neutro das classificações. Para Bridi, categorias utilizadas para nomear relações de trabalho ajudam a definir como essas relações serão reconhecidas, reguladas e protegidas. Entre os desafios epistemológicos destacados estão reconhecer a historicidade das categorias; distinguir transformação de ruptura e novidade de permanência; incorporar as diferentes dimensões das desigualdades; e desnaturalizar a individualização dos problemas sociais.


















































































