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Sessão Especial no ALAS debate trabalho, proteção social e ação coletiva diante das transformações do mundo do trabalho

Sessão Especial no ALAS debate trabalho, proteção social e ação coletiva diante das transformações do mundo do trabalho

Durante o XXXV Congresso Latino-Americano de Sociologia (ALAS), realizado no Rio de Janeiro entre os dias 26 e 31 de julho, uma das atividades de destaque da programação foi a Sessão Especial "Trabajo, protección social y acción colectiva", dedicada ao debate dos desafios contemporâneos do trabalho na América Latina. As Sessões Especiais do Congresso constituem espaços destinados à discussão de temas estratégicos e de interesse transversal para a sociologia latino-americana, reunindo pesquisadores convidados em torno de agendas de pesquisa consolidadas.

 

 

A sessão foi organizada conjuntamente pela Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET), pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), evidenciando a convergência entre pesquisa acadêmica e produção de conhecimento voltada às políticas públicas e ao mundo do trabalho. A coordenação coube a Adalberto Cardoso (IESP/UERJ) e Bruna da Penha (UERJ). Participaram da mesa Roberto Véras de Oliveira (INCT Trabalho/UFPB), Andreia Galvão (Unicamp), Ana Paula Colombi (UFES) e Adriana Marcolino (DIEESE).

 

 

Plataformas digitais e novos padrões das relações de trabalho

Na primeira exposição, Roberto Véras de Oliveira apresentou resultados da pesquisa internacional Platlaboral/Redlatt, desenvolvida em cinco países latino-americanos e vinte cidades, envolvendo 393 entrevistas com entregadores de plataformas digitais. A apresentação discutiu a hipótese de que a plataformização está contribuindo para uma reestandardização das relações de trabalho na América Latina, combinando trabalho sob demanda, gestão algorítmica, remuneração por tarefa e transferência dos riscos para os trabalhadores. A análise destacou que esse processo não substitui a histórica heterogeneidade dos mercados de trabalho latino-americanos, mas se articula a ela, reorganizando formas já existentes de precarização e informalidade. Ao mesmo tempo, foram ressaltadas as múltiplas formas de agência, organização coletiva e disputa regulatória construídas pelos trabalhadores diante desse novo modelo de gestão.

 

 

Percepções sociais sobre trabalho, sindicalismo e direitos


Na segunda apresentação, Andreia Galvão (Unicamp) e Ana Paula Colombi (UFES) expuseram resultados de uma pesquisa sobre as percepções dos trabalhadores acerca do trabalho, dos direitos e do sindicalismo. O estudo examinou como os entrevistados avaliam sua posição ocupacional, remuneração, reconhecimento social, perspectivas profissionais e acesso à proteção trabalhista. Os dados revelam uma experiência marcada por tensões: o trabalho permanece valorizado, mas convivem com ele sentimentos de pressão, baixa remuneração e incerteza quanto ao futuro. A maioria considera que direitos trabalhistas devem ser assegurados a todos e reconhece a importância dos sindicatos e associações na defesa de direitos, na melhoria dos salários e das condições de trabalho. Ao mesmo tempo, a baixa sindicalização e o desconhecimento sobre a atuação sindical indicam desafios para aproximar essas organizações do cotidiano e das demandas concretas dos trabalhadores.

 

 

O que os brasileiros pensam sobre trabalho, empreendedorismo e sindicatos

Encerrando a sessão, Adriana Marcolino (DIEESE) apresentou resultados de uma ampla pesquisa nacional realizada pelo DIEESE sobre a percepção dos brasileiros em relação ao trabalho, ao empreendedorismo e ao sindicalismo. A pesquisa mostrou que o trabalho continua ocupando posição central na vida da população, embora convivendo com elevados níveis de insegurança, estresse e insatisfação com salários e condições de trabalho. Os resultados indicam que a estabilidade de renda e a proteção social permanecem altamente valorizadas, mesmo entre trabalhadores autônomos e empreendedores, desafiando interpretações simplificadas que opõem emprego formal e empreendedorismo. Também foram apresentados dados sobre a percepção dos sindicatos, evidenciando que a melhoria dos salários, das condições de trabalho e da proteção social continua sendo apontada como prioridade pela maioria dos entrevistados, ao mesmo tempo em que se destaca a necessidade de ampliar a presença e a comunicação das entidades sindicais junto aos trabalhadores.

 

 

Pesquisa, políticas públicas e diálogo regional

Embora centradas em objetos distintos, as três apresentações convergiram para uma mesma preocupação: compreender as profundas transformações do mundo do trabalho e seus efeitos sobre a proteção social, os direitos e as formas de organização coletiva na América Latina. Ao articular resultados de pesquisas comparativas internacionais, análises sobre ação coletiva e evidências produzidas por pesquisas nacionais de opinião, a Sessão Especial evidenciou a importância da cooperação entre universidades, instituições de pesquisa e organizações comprometidas com a produção de conhecimento sobre o trabalho.

A realização conjunta da atividade pela ABET, pelo INCT Trabalho e pelo DIEESE reafirma essa perspectiva, fortalecendo um espaço de diálogo entre pesquisa acadêmica, formulação de políticas públicas e debate público sobre os desafios do trabalho na região. Em um contexto de aceleradas mudanças tecnológicas, reconfiguração das relações laborais e persistência das desigualdades, a sessão contribuiu para reafirmar a centralidade do trabalho como objeto estratégico para a sociologia latino-americana e para a construção de alternativas orientadas pela democracia, pela proteção social e pela ampliação dos direitos.