O livro Debates y miradas sobre el capitalismo de plataformas en América Latina reúne autores e autoras de diferentes países da região em torno das transformações associadas à expansão das plataformas digitais no mundo do trabalho. A publicação articula pesquisas empíricas e reflexões teóricas sobre temas como financiarização, gestão e controle algorítmico, ação coletiva, gênero, desigualdades e regulação.

Foto: José Tapia / El Colegio de México
Entre os pesquisadores vinculados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho) que participam da obra estão Minor Mora Salas, Maria Aparecida Bridi, Andrea Delfino e Roberto Véras de Oliveira, com contribuições na coordenação e na autoria da publicação. Minor Mora Salas e Maria Aparecida Bridi estão entre os co-coordenadores da obra, ao lado de Carlos Alba. A participação desses pesquisadores amplia a interlocução entre o INCT-Trabalho e a produção latino-americana sobre o capitalismo de plataformas.
O livro foi apresentado em evento presencial de lançamento, transmitido também pelo YouTube, com a participação de parte dos organizadores e autores. Durante o encontro, Minor Mora Salas atuou como mediador e conduziu também a apresentação do bloco da obra organizado por Roberto Véras de Oliveira.
Plataformas, poder e desigualdades na América Latina
Durante o lançamento, Minor Mora Salas destacou que as empresas de plataforma não devem ser compreendidas apenas como intermediárias tecnológicas, mas como novas formas de organização empresarial e infraestruturas de poder. Segundo o pesquisador, o capitalismo de plataformas se expande na América Latina sobre um terreno já marcado por informalidade, desemprego e desigualdades, contexto no qual a promessa de "flexibilidade" convive com estratégias de sobrevivência e processos de despossessão.
Mora Salas também introduziu discussões sobre temas emergentes abordados na publicação, entre eles migração, gênero e a expansão do modelo de plataformas para diferentes setores econômicos.
Maria Aparecida Bridi, também co-coordenadora da obra, apresentou a seção dedicada à ação coletiva e ao sindicalismo. A pesquisadora chamou atenção para uma das contradições do trabalho em plataformas: embora organizado de maneira individualizada e frequentemente associado ao discurso do empreendedorismo, permanece submetido a formas intensas de gestão e controle algorítmico.
Segundo Bridi, situações como bloqueios arbitrários, falta de transparência e exposição a riscos também contribuem para impulsionar novas formas de organização e resistência dos trabalhadores. Durante o lançamento, a pesquisadora apresentou ainda o INCT-Trabalho à comunidade acadêmica latino-americana e convidou os participantes a acompanhar os seminários teóricos promovidos pelo Instituto.
Tempo de trabalho, gestão algorítmica e "autogestão subordinada"
A relação entre tecnologia, controle e tempo de trabalho aparece na contribuição de Andrea Delfino. A pesquisadora analisa a reestruturação do tempo de trabalho a partir do diálogo entre a teoria do valor-trabalho e a Sociologia do Trabalho. Em sua análise, a gestão algorítmica promove uma redução acentuada da porosidade do tempo de trabalho, ao mesmo tempo em que transfere aos trabalhadores os custos dos períodos de espera não remunerados.

Foto: José Tapia / El Colegio de México
Delfino aborda ainda as jornadas prolongadas e o descompasso entre o tempo em que o trabalhador permanece à disposição da plataforma e aquele que é efetivamente remunerado.
O bloco organizado por Roberto Véras de Oliveira, apresentado durante o lançamento por Minor Mora Salas, concentrou-se nas questões relacionadas à gestão e ao controle algorítmico. Entre as contribuições de Véras está a noção de "autogestão subordinada", formulada para expressar a contradição vivenciada por trabalhadores formalmente apresentados como autônomos, mas cujas possibilidades de decisão, ritmos e condições de trabalho são delimitados e monitorados pelos sistemas algorítmicos das plataformas.
Gênero e trabalho por plataformas
A dimensão latino-americana da publicação também aparece nas pesquisas sobre os efeitos diferenciados do trabalho plataformizado e suas relações com gênero, reprodução social e violência.

Foto: José Tapia / El Colegio de México
Rosario Aparício e Carlos Alba analisam o trabalho de entregas por aplicativos na Cidade do México sob a perspectiva de gênero. O estudo indica que a chamada flexibilidade proporcionada pelas plataformas não produz os mesmos efeitos para homens e mulheres. Entre mulheres com filhos ou responsabilidades de cuidado, as interrupções da jornada e a necessidade de conciliar trabalho remunerado e reprodução social resultam em maior precarização e rendimentos menores.
Também a partir da Cidade do México, Susana Rosales apresentou o estudo "Violência 4.0", centrado na experiência do coletivo Ni una repartidora menos. A pesquisa identifica diferentes manifestações de violência de gênero enfrentadas pelas entregadoras em distintos momentos do trabalho: durante a espera e a coleta dos pedidos, no deslocamento pelas ruas e no contato final com os clientes.

Foto: José Tapia / El Colegio de México
A análise aborda situações que vão da hostilidade em estabelecimentos e no ambiente de trabalho à violência viária, ao assédio e a outras formas de agressão, relacionando essas experiências às desigualdades de gênero presentes tanto na organização das plataformas quanto no espaço urbano.
Estratégias dos trabalhadores diante do controle algorítmico
Outras contribuições investigam como os próprios trabalhadores desenvolvem estratégias para lidar com as formas de gestão e controle impostas pelas plataformas.

Foto: José Tapia / El Colegio de México
Aurora Rebeca de la Rosa, a partir de uma investigação etnográfica com motoristas da Uber na Cidade do México, trabalha com o conceito de "algo-activismo" para analisar como os trabalhadores aprendem as lógicas e as brechas dos algoritmos e procuram reconfigurar, individual e coletivamente, suas jornadas.
A pesquisa acompanha a formação de redes virtuais, especialmente em grupos de WhatsApp e Facebook, e sua articulação em diferentes iniciativas, que incluem compras coletivas, reivindicações relacionadas ao trânsito e formas de organização sindical.

Foto: José Tapia / El Colegio de México
José Ceron, por sua vez, apresenta uma pesquisa etnográfica realizada a partir da experiência como trabalhador incógnito em armazéns da Amazon no México. O estudo analisa mecanismos de vigilância, avaliação por métricas e gamificação do desempenho, nos quais erros podem gerar penalizações e repercutir sobre a permanência dos trabalhadores no emprego.
A pesquisa também problematiza a narrativa de uma logística amplamente automatizada. A partir da experiência nos armazéns mexicanos, Ceron destaca a dependência persistente do trabalho humano e utiliza a noção de "trabalho pseudopolivalente" para caracterizar atividades nas quais os trabalhadores precisam responder continuamente às exigências e aos gargalos do processo logístico.
Uma agenda latino-americana de pesquisa
Ao reunir autores e autoras de diferentes países, Debates y miradas sobre el capitalismo de plataformas en América Latina apresenta o capitalismo de plataformas como um fenômeno que ultrapassa a dimensão estritamente tecnológica. Os estudos abordam suas articulações com desigualdades históricas, formas de gestão e controle, divisão sexual do trabalho, ação coletiva e regulação, evidenciando também as características específicas assumidas por essas transformações nas sociedades latino-americanas.
A participação de pesquisadores vinculados ao INCT-Trabalho na coordenação e na autoria da publicação aproxima as pesquisas desenvolvidas no Instituto de uma agenda mais ampla de interlocução latino-americana sobre as transformações do trabalho contemporâneo.
