Notícias

Membros do Comitê Gestor do INCT Trabalho participam do Seminário “Indicadores de Trabalho Decente”

Membros do Comitê Gestor do INCT Trabalho participam do Seminário “Indicadores de Trabalho Decente”

Promovida pelo Observatório do Trabalho Decente do Poder Judiciário, a atividade reuniu representantes do CNJ, OIT, MTE, DIEESE, CESIT/Unicamp, IESP-UERJ, TST/CSJT, Instituto Ethos, MPT e INCT Trabalho para discutir indicadores capazes de orientar políticas de promoção do trabalho decente.

Quatro integrantes do Comitê Gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) participaram, em 14 de agosto de 2026, do Seminário “Indicadores de Trabalho Decente”, promovido pelo Observatório do Trabalho Decente do Poder Judiciário. Renata Queiroz Dutra coordenou a atividade; José Dari Krein e Adalberto Cardoso estiveram entre os expositores; e Roberto Véras de Oliveira participou como debatedor. Realizado em formato híbrido, das 9h às 12h e das 14h às 17h, o encontro teve caráter de reunião de trabalho e reuniu pesquisadores, gestores e representantes de instituições com reconhecida atuação na produção de dados e estudos sobre o mundo do trabalho.

 

Seminário foi realizado em formato híbrido, com participantes presenciais e remotos. Reprodução: CNJ.

Organizado pelo Eixo 1 do Observatório - Produção, Sistematização e Análise de Dados e Pesquisas -, o seminário teve como objetivo compartilhar iniciativas de formulação de indicadores de trabalho decente, mapear esforços teóricos e metodológicos já realizados e identificar possibilidades de atualização e aperfeiçoamento. A finalidade mais ampla é subsidiar a construção de uma matriz de indicadores destinada ao monitoramento e à avaliação das ações de promoção e proteção do trabalho decente no Sistema de Justiça.

O Observatório foi instituído pela Portaria da Presidência do CNJ nº 412/2025. A Portaria nº 53/2026, posteriormente atualizada, definiu sua composição, reunindo centrais sindicais, confederações patronais, organizações de trabalhadores, universidades, centros de pesquisa e entidades como OIT e DIEESE. O colegiado é supervisionado pela ministra do Tribunal Superior do Trabalho Kátia Magalhães Arruda. O Comitê Diretivo inclui representantes do CNJ, CSJT, MPT, MTE, Instituto Ethos, Fórum das Centrais Sindicais e da universidade pública, entre eles Renata Dutra.

Na abertura, a juíza auxiliar da Presidência do CNJ Gabriela Lenz de Lacerda situou a iniciativa entre as prioridades da gestão 2025-2027 do Conselho, que elegeu o trabalho decente e a vida digna como um de seus eixos. Ela explicou que o plano do Observatório está organizado em seis frentes: dados, pesquisas e indicadores; aperfeiçoamento da jurisdição; formação e capacitação; diálogo social e articulação interinstitucional; boas práticas; e desenvolvimento da política. Em vez de “inventar a roda”, acrescentou, o Eixo 1 iniciou um mapeamento do conhecimento, das bases de dados, dos repositórios e das metodologias já existentes.

Renata Dutra, integrante do Comitê Diretivo e coordenadora do Eixo 1, conduziu as duas sessões. Segundo ela, a construção de indicadores constitui um dos maiores desafios do Observatório, devido à amplitude e às controvérsias que cercam o conceito de trabalho decente. A estratégia adotada foi conhecer o estado da arte, avaliar as iniciativas disponíveis e verificar se o CNJ deverá formular novos instrumentos ou combinar experiências consolidadas para atender às particularidades do Poder Judiciário.

OIT e MTE abrem a programação

 

Na sessão da manhã, José Ribeiro apresentou a trajetória da Organização Internacional do Trabalho na formulação e aplicação de indicadores no Brasil. O conceito de trabalho decente articula quatro objetivos estratégicos: promoção dos direitos no trabalho, geração de mais e melhores empregos, extensão da proteção social e fortalecimento do diálogo social. Seus déficits aparecem na insuficiência e má qualidade dos empregos, na proteção social inadequada, na negação de direitos - como trabalho infantil, trabalho análogo à escravidão e discriminações - e nas fragilidades de representação e diálogo, sempre atravessadas pelas desigualdades de gênero e raça.

Ribeiro recuperou experiências acumuladas desde 2009, incluindo perfis nacionais, estaduais e municipais, iniciativas relacionadas à Agenda 2030 e aplicações recentes na II Conferência Nacional do Trabalho. Também colocou uma questão central para o seminário: é preferível trabalhar com um conjunto de indicadores ou construir um índice sintético? Para a OIT, os instrumentos precisam identificar déficits, permitir comparações no tempo e no território e apoiar políticas, sem ocultar as diferentes dimensões que compõem a qualidade do trabalho.

 

Apresentação da OIT destacou os déficits de trabalho decente e sua relação com desigualdades e exclusões. Reprodução: gravação do seminário.

 

Paula Montagner expôs como o Ministério do Trabalho e Emprego utiliza informações e indicadores na gestão, no planejamento e no acompanhamento de seus resultados. A apresentação destacou a necessidade de transformar registros administrativos em conhecimento útil, articulando dados sobre inspeção, segurança e saúde, qualificação, aprendizagem, relações de trabalho e proteção ao trabalhador. Também relacionou esse esforço ao diagnóstico produzido para a II Conferência Nacional do Trabalho. Os comentários da manhã foram feitos principalmente por Caio Magri, do Instituto Ethos, e Camila Rocha, da Secretaria de Pesquisa Judiciária do TST/CSJT. O debate ressaltou a necessidade de indicadores transparentes, territorializados e orientados a decisões, além de maior integração entre dados do Executivo e registros processuais do Judiciário.

DIEESE e CESIT apresentam experiências de mensuração

 

À tarde, Adriana Marcolino, diretora técnica do DIEESE, apresentou um conjunto articulado de experiências: observatórios locais e regionais do mercado de trabalho, o Índice da Condição do Trabalho (ICT), repositórios de estudos e metodologias e publicações periódicas. Os observatórios, explicou, não se limitam a divulgar números: produzem análises, apoiam políticas de emprego, trabalho e renda e estimulam a articulação entre governos, sindicatos, universidades e organizações sociais.

O ICT foi criado para oferecer uma visão mais abrangente que a taxa de desemprego. Calculado a partir da PNAD Contínua, combina três dimensões - inserção ocupacional, desocupação e rendimento - e oito indicadores, como formalização, contribuição previdenciária, permanência no emprego, desalento, duração da procura por trabalho, rendimento por hora e distribuição dos rendimentos. Marcolino também advertiu que um Observatório precisa combinar indicadores, estudos qualitativos, acompanhamento de tendências e capacidade de identificar fenômenos emergentes, com atenção às desigualdades territoriais e aos recortes de gênero, raça e outros marcadores.

 

Adriana Marcolino apresentou experiências do DIEESE com observatórios, índice, repositórios e estudos periódicos. Reprodução: gravação do seminário.

Em seguida, José Dari Krein, Arthur Welle e Adalberto Cardoso apresentaram a pesquisa “Por um Índice de Desenvolvimento Humano no Trabalho”, desenvolvida no CESIT/Unicamp em parceria com o Ministério Público do Trabalho. Krein ressaltou que o projeto nasceu da preocupação com a perda de centralidade do trabalho no debate público e produziu instrumentos complementares: um conjunto amplo de indicadores, um índice multidimensional de privações e um índice sintético. A proposta pretende facilitar a comunicação social sem reduzir a realidade do trabalho a um único número.

Arthur Welle detalhou o índice multidimensional de privações, que permite identificar a proporção de trabalhadores submetidos a carências e a intensidade dessas privações, além de decompor os resultados por dimensão, território e grupo social. Adalberto Cardoso apresentou o Índice de Desenvolvimento Humano no Trabalho, construído a partir de dimensões inspiradas no trabalho decente, mas voltado a captar processos estruturais de mais longo prazo. O índice agrega variáveis normalizadas, selecionadas por procedimentos estatísticos e ponderadas de maneira uniforme, permitindo comparações temporais e territoriais. Cardoso destacou que o indicador sintético serve sobretudo para chamar a atenção para tendências e problemas; a formulação de políticas exige abrir o índice e examinar seus componentes.

 

Dari Krein, Arthur Welle e Adalberto Cardoso expuseram a proposta de um Índice de Desenvolvimento Humano no Trabalho. Reprodução: gravação do seminário.

Indicadores precisam conduzir à ação

 

No debate da tarde, o procurador Luís Fabiano de Assis, coordenador da plataforma SmartLab, ponderou que índices sintéticos comunicam tendências, mas não respondem sozinhos onde e como intervir. Sugeriu que o CNJ relacione indicadores aos déficits sobre os quais o Judiciário pode agir, incluindo mapas territoriais dos conflitos laborais, efetividade da execução, pagamento de créditos reconhecidos e dados dos programas de combate ao trabalho infantil e ao trabalho escravo.

Roberto Véras destacou que um observatório deve ser entendido como uma arquitetura integrada de informação e conhecimento, articulando indicadores, repositórios, pesquisas, análises qualitativas e monitoramento de fenômenos emergentes. Avaliou que o índice apresentado tem potencial para reposicionar o trabalho no debate público, comparar períodos e territórios e orientar novas agendas de pesquisa. Ao mesmo tempo, propôs aprofundar a incorporação das desigualdades, produzir desagregações por gênero, raça e território e construir legitimidade científica, institucional e política para que o instrumento se converta em referência pública.

Ao encerrar, Renata Dutra afirmou que as experiências e controvérsias debatidas ampliarão o repertório do Observatório e serão sistematizadas em relatório. A expressiva participação do INCT Trabalho - por meio de Renata Dutra, Dari Krein, Adalberto Cardoso e Roberto Véras - evidencia a convergência entre a agenda do Instituto e a iniciativa do CNJ: produzir diagnósticos rigorosos sobre o mundo do trabalho, aperfeiçoar metodologias e transformar conhecimento científico em subsídio para políticas públicas comprometidas com inclusão, equidade, direitos e trabalho decente.