O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) realizou, na quarta-feira, 26 de agosto, a segunda sessão do I Seminário do Eixo 5: “Contribuições teóricas sobre o trabalho na era digital”. Realizado de forma virtual, o encontro deu continuidade às discussões iniciadas em 24 de agosto, reunindo pesquisadores(as), docentes, estudantes e demais interessados nas transformações contemporâneas do trabalho associadas à digitalização e à plataformização.
O seminário integra as atividades do Eixo 5 do INCT Trabalho e busca promover o diálogo entre diferentes perspectivas teóricas sobre o trabalho na era digital. A programação do dia foi organizada em duas mesas.
- Mesa 1: Andrea Delfino (UNL/UNR), com a exposição “Digitalização e tempo de trabalho”, e Mariela Quiñones (Udelar), com “La estructuración social del tiempo en el trabajo digital”, sob mediação de Armida García (UAZ).
- Mesa 2: Henrique Amorim (UNIFESP), que discutiu “Plataformas digitais como uma nova maquinaria?”, e Márcia Leite (UAM), com “Trabajo mediado por plataforma. Hacia un nuevo modelo productivo?”, sob mediação de Mario Henrique Guedes Ladosky (UFCG).
A primeira mesa, Mariela Quiñones abordou a digitalização a partir de uma teoria mais ampla da aceleração, compreendida como uma lógica estrutural do capitalismo contemporâneo. A pesquisadora destacou que, no capitalismo digital, a produção de valor envolve não apenas o trabalho tradicional, mas também dados, interação, subjetividade, atenção, visibilidade e reputação. Nesse contexto, o tempo passa a ser não apenas uma medida do trabalho, mas também um elemento de valorização. Quiñones, discutiu ainda a intensificação dos ritmos, a redução das pausas e a exigência de disponibilidade, aspectos que contribuem para novas desigualdades temporais. A aceleração pode produzir fragmentação, vigilância contínua e dificuldades para estabelecer limites entre trabalho e não trabalho. A exposição também abordou as relações entre flexibilidade e gênero, destacando que a autonomia sobre os horários pode favorecer a conciliação com atividades de cuidado, mas também provocar perda de rendimentos quando os períodos de maior demanda são incompatíveis com essas responsabilidades.

Andrea Delfino, por sua vez, analisou as transformações do tempo de trabalho e suas manifestações nas atividades laborais. A partir da teoria do valor-trabalho de Marx e de pesquisas com trabalhadores plataformizados de entrega, discutiu a porosidade do tempo de trabalho e as mudanças nas jornadas e no chamado tempo das prestações laborais. A exposição destacou o paradoxo entre a valorização da flexibilidade pelos trabalhadores e a dilatação das jornadas e da subordinação decorrentes da gestão algorítmica.

A mediação de Armida García articulou as exposições e o debate sobre diferentes temporalidades no trabalho digital. As discussões permitiram relacionar aceleração, disponibilidade, cuidado, desigualdades e formas contemporâneas de extração de valor em diferentes contextos de trabalho.

Na segunda mesa, Henrique Amorim discutiu se as plataformas digitais podem ser compreendidas como uma nova maquinaria. A partir da análise das transformações das forças produtivas e da relação entre elementos novos e antigos, o pesquisador argumentou que a produção por plataformas pode ser entendida como uma forma de produção industrial, ainda que não esteja restrita ao espaço fabril. As plataformas, segundo a análise apresentada, radicalizam características da produção industrial ao combinar trabalhadores, fragmentar tarefas e controlar tempos, movimentos e ritmos por meio de aplicativos e sistemas digitais.
Amorim, também destacou a transferência de custos e riscos aos trabalhadores, que passam a assumir despesas com equipamentos, veículos e outros recursos necessários à atividade. A discussão abordou ainda a expansão do gerenciamento algorítmico, da individualização e do autogerenciamento, apontando a plataformização como uma intensificação de mecanismos de exploração, controle e subordinação do trabalho.

Márcia Leite encerrou as exposições discutindo o trabalho mediado por plataformas e a possibilidade de configuração de um novo modelo produtivo. Com base em pesquisas realizadas no Brasil e no México, a pesquisadora apresentou a hipótese de que o capital busca estabelecer um novo momento da produção capitalista, ainda marcado por transições e disputas. Para Leite, as transformações não são determinadas apenas pela tecnologia, mas também pelas trajetórias das relações de trabalho e pelas lutas dos trabalhadores em diferentes contextos.

A exposição destacou a combinação entre novas tecnologias e formas de gestão voltadas ao aumento da produtividade e da extração de mais-valia, ao mesmo tempo em que recuperam mecanismos como o pagamento por peça e formas intensas de controle. Também foram discutidos processos de terceirização e externalização e as cadeias formadas por empresas, fornecedores e trabalhadores, nas quais a pressão pela redução de custos pode repercutir sobre as condições de trabalho e o valor da força de trabalho. A comparação entre Brasil e México evidenciou que a configuração desse modelo permanece em disputa entre estratégias do capital e ações coletivas dos trabalhadores.
A mediação de Mario Henrique Guedes Ladosky aproximou as apresentações e estimulou o debate sobre o que há de novo no capitalismo de plataformas. Entre as questões levantadas estiveram as relações entre trabalho, mineração de dados, atividades financeiras e o papel dos clientes nas relações mediadas pelas plataformas.

Em conjunto, as discussões do dia 26 evidenciaram que compreender o trabalho na era digital exige articular diferentes dimensões do fenômeno. Tempo, aceleração, disponibilidade, gestão algorítmica, organização da produção, precarização, relações de trabalho e disputas entre capital e trabalhadores apareceram como questões centrais para interpretar as transformações em curso. A segunda sessão reforçou, assim, a proposta do Eixo 5 de construir um espaço de interlocução teórica sobre as mudanças contemporâneas no mundo do trabalho.

Continuidade da programação
Com a realização das duas mesas, o I Seminário do Eixo 5 avançou em seu primeiro ciclo de debates, que terá continuidade em 9 de setembro. A programação seguirá reunindo pesquisadores de diferentes instituições e perspectivas para aprofundar a reflexão sobre o trabalho digital, suas formas de organização e as novas configurações das relações entre tecnologia, capital e trabalho.
As inscrições permanecem abertas ao longo do período do evento por meio do formulário oficial: https://forms.gle/GPXPJ3v63sa23K8z5.
