O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Trabalho, Equidade e Inclusão realizou, na quarta-feira (9), o terceiro e último encontro do I Seminário do Eixo 5: Contribuições teóricas sobre o trabalho na era digital. Realizado de forma virtual, o evento reuniu pesquisadores(as), docentes, estudantes e demais interessados para discutir as transformações contemporâneas do trabalho diante da expansão das tecnologias digitais, da datificação, da automação e da inteligência artificial.
A programação foi organizada em duas mesas.
- A Mesa 5: contou com as exposições de Roseli Aparecida Fígaro Paulino (USP), sobre “Datificação do trabalho: a captura das materialidades sensíveis”, e Sidartha Soria (UFPE), com o tema “Automação e produtividade no mundo do trabalho digital”. A mediação foi realizada por Mariana Shinohara Roncato (UFPB).
- Mesa 6: reuniu Julio César Neffa (CLACSO) sobre “Inovações tecnológicas e processo de trabalho” e Jonas Valente (Universidade de Oxford) com o tema “Possibilidades e limites do conceito de trabalho digital”. A mediação foi realizada por Aline Suelen Pires (UFSCar).
Na Mesa 5, Roseli Fígaro problematizou o chamado “deslumbramento tecnológico”, dialogando com a contribuição de Álvaro Vieira Pinto. Para a pesquisadora, tecnologia e trabalho devem ser compreendidos a partir das relações sociais e históricas que os constituem, e não como fenômenos autônomos.
Em sua exposição, Fígaro apresentou a ideia de uma cadeia produtiva digital de dados e destacou a concentração econômica e o poder associado às grandes empresas que controlam infraestruturas, plataformas e dados. Um dos eixos centrais de sua fala foi o conceito de “materialidades sensíveis”, utilizado para compreender a captura do trabalho vivo em tempo real. Gestos, ações cognitivas, interações e saberes mobilizados durante a atividade podem ser registrados e transformados em dados por softwares e sistemas de gestão. Ao final, defendeu governança democrática dos dados, transparência sobre sua coleta e utilização e participação dos trabalhadores e de suas organizações na definição de seus usos.

Em seguida, Sidartha Soria analisou a automação e a produtividade a partir de uma leitura crítica de Marx. O pesquisador chamou atenção para o paradoxo de tecnologias capazes de reduzir o tempo necessário à produção, mas que, sob relações capitalistas, podem resultar em intensificação do trabalho, ampliação das jornadas e novas formas de exploração. Ao discutir a inteligência artificial como uma nova modalidade de maquinaria, destacou que seu funcionamento depende continuamente de trabalho humano, desde a concepção e programação até a coleta, seleção, anotação e alimentação de dados.
Soria também problematizou a ideia de que o aumento da produtividade conduziria automaticamente à emancipação do trabalho. Em sua análise, a IA pode concentrar em um único trabalhador tarefas antes distribuídas entre diferentes profissionais, ampliando responsabilidades e carga mental. A discussão destacou, assim, a necessidade de compreender a tecnologia em relação às formas sociais que orientam sua produção e utilização.

A Mesa 6 aprofundou a discussão a partir de uma perspectiva histórica e conceitual. Julio César Neffa apresentou uma análise da evolução dos processos de trabalho no capitalismo, relacionando as transformações tecnológicas à busca pela redução do tempo de trabalho socialmente necessário e pela redução de custos. Ao recuperar momentos como a divisão do trabalho, o taylorismo e o fordismo, destacou continuidades e mudanças que ajudam a compreender as formas atuais de organização do trabalho.
Ao abordar a inteligência artificial, Neffa ressaltou que a IA pode ampliar capacidades humanas, contribuir para a inovação e liberar tempo para atividades criativas, mas também pode ser utilizada para substituir trabalhadores e reduzir custos salariais. Para o pesquisador, um elemento fundamental para que seus efeitos sejam favoráveis aos trabalhadores é a democracia econômica, com participação dos trabalhadores nas decisões sobre a adoção das novas tecnologias. Também chamou atenção para os impactos das transformações tecnológicas sobre a saúde psíquica e mental, destacando ansiedade, estresse e sofrimento relacionados à organização do trabalho.

Encerrando as exposições, Jonas Valente problematizou o conceito de “trabalho digital”. Em vez de tratá-lo como uma categoria capaz de explicar, por si só, diferentes fenômenos, propôs compreendê-lo como um campo de estudos sobre trabalho e digitalização, abrangendo processos de trabalho influenciados pelas tecnologias digitais. O pesquisador ressaltou ainda que a economia digital possui forte dimensão material, envolvendo infraestrutura, data centers, dispositivos, minerais e outras condições concretas de produção.
Valente também discutiu a relação entre trabalho, consumo e plataformas digitais, destacando formas de externalização de custos e de realização de atividades não remuneradas, como os períodos de espera de trabalhadores de plataformas e tarefas realizadas no trabalho remoto. O debate apontou, ainda, para a necessidade de distinguir trabalho, consumo e lazer, observando como essas esferas se relacionam e se transformam no contexto da digitalização.

Ao longo das duas mesas, as exposições e os debates evidenciaram que a digitalização não constitui um fenômeno exclusivamente técnico: ela envolve relações de poder, formas de organização da produção, disputas sobre o controle dos dados e diferentes possibilidades de apropriação social das tecnologias. As mediações de Mariana Roncato e Aline Pires contribuíram para articular as exposições e estimular o diálogo com questões apresentadas pelo público.


Nesse sentido, o último encontro reafirmou a importância de uma abordagem crítica capaz de articular inovação tecnológica, relações de trabalho e experiências dos trabalhadores. Com a realização das Mesas 5 e 6, foi encerrada a programação do I Seminário do Eixo 5, consolidando um espaço de diálogo sobre os desafios teóricos e empíricos colocados pelas transformações digitais e suas implicações para o trabalho contemporâneo.

