O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho) deu início, no dia 24 de agosto, à primeira sessão do I Seminário do Eixo 5, intitulado “Contribuições teóricas sobre o trabalho na era digital”. Transmitido virtualmente, o encontro reuniu docentes, discentes e especialistas para debater os impactos das inovações organizacionais, do avanço das plataformas e da reorganização produtiva nas relações laborais contemporâneas.
O ciclo de debates integra o Eixo 5 do projeto (“Os efeitos das inovações organizacionais e tecnológicas no mercado de trabalho”), que prevê uma série de sessões ao longo de cinco anos. A atividade inaugural articulou seis pesquisadores em duas mesas temáticas, aprofundando modelos conceituais para apreender a complexidade da digitalização econômica.

Mesa 1: Financeirização, infraestrutura material e desconstrução do “mercado de trabalho”
Com coordenação de Jacob Carlos Lima (UFSCar), a primeira mesa discutiu os fundamentos macroeconômicos e estruturais do trabalho no capitalismo digital.
- Marcelo Manzano (Unicamp) abordou o tema “Financeirização, plataformização e exploração da força de trabalho”. O economista destacou paradoxos do modelo corporativo contemporâneo, como a acelerada valorização de mercado das big techs em contraste com prejuízos operacionais persistentes. Manzano explicou que o trabalhador plataformizado passa a ser tratado contabilmente como um ativo (e não mais passivo) pelas corporações na medida em que os riscos econômicos e trabalhistas são integralmente transferidos aos indivíduos. Ele detalhou as cinco camadas de valorização do capital em plataformas: exploração direta da mais-valia, mineração de dados, arbitragem regulatória, subsunção do trabalho servil/doméstico e cercamentos digitais articulados ao capital fictício.

- Jörg Nowak (UnB) e Gabriel Teles (UnB) apresentaram em conjunto a exposição “Sobre o conceito do capital digital”. Nowak iniciou desmistificando o impacto da inteligência artificial e da automação sobre os ganhos gerais de produtividade, demonstrando que os aumentos expressivos se concentram em uma fatia restrita de empresas de ponta (as chamadas empresas da fronteira), enquanto a produtividade média permanece estagnada. Dando sequência à análise, Teles sustentou que o capital digital não pode ser reduzido a "ativos intangíveis". Pelo contrário, apoia-se em uma densa base material e industrial — como fábricas de semicondutores (chips), cabos de fibra ótica e data centers de alta demanda energética. Para os pesquisadores, o diferencial dessas grandes corporações reside no comando estratégico e na capacidade de coordenar infraestruturas materiais, dados e circuitos produtivos alheios, gerando novas dependências econômicas.


- Roberto Véras de Oliveira (UFPB) apresentou a reflexão “‘Mercado de trabalho’ e trabalho plataformizado: reflexões polanyianas, feministas e latino-americanas”. O pesquisador colocou em questão a própria categoria convencional de "mercado de trabalho", argumentando que a noção de um espaço neutro e autorregulado oculta a mercadorização fictícia da vida e nunca deu conta da realidade periférica. Apoiando-se na economia feminista e no pensamento social latino-americano, Véras demonstrou como as plataformas digitais intensificam a mercantilização ao converter recursos e tempos domésticos em trabalho sob demanda. Ele ressaltou que esse processo é mediado por contramovimentos de resistência, pela familiarização (em que a família absorve custos de manutenção de veículos, celulares e acidentes) e pela mutualização (redes de solidariedade entre os próprios trabalhadores).

Mesa 2: Economia política das plataformas, tipologias e novas pedagogias neoliberais
Sob a mediação de Ricardo Colturato Festi (UnB), a segunda mesa dedicou-se à sistematização de categorias conceituais, à análise de controvérsias e às tipificações empíricas do trabalho por plataformas.
- Maria Aparecida Bridi (UFPR) apresentou a conferência “Capitalismo de plataformas”. A socióloga estruturou o campo teórico em quatro grandes eixos: a economia política das corporações digitais e mercados proprietários; a datificação e vigilância comportamental; o processo de trabalho e gestão algorítmica opaca; e a dependência tecnológica na divisão internacional do trabalho. Bridi também discutiu o conceito de endogeneização, ressaltando que modelos de negócios globais não encontram realidades sociais uniformes. Na América Latina, a plataformização não inaugurou a precariedade, mas acoplou-se a traços históricos de informalidade, heterogeneidade estrutural e estratégias de sobrevivência.

- Julice Salvagni (UFRGS) encerrou as apresentações debatendo “Conceitos e tipologias de plataformas digitais”. A professora delimitou as distinções conceituais entre trabalho digital amplo e trabalho por plataformas, sublinhando que o traço fundante deste último é a ausência e negação de vínculo empregatício e de direitos. Salvagni distinguiu ainda o trabalho local ("de rua", como motoristas e entregadores) e o trabalho em nuvem (cloud work, como moderadores de conteúdo, treinadores de IA e trabalhadores em fazendas de clique remunerados por frações de centavo). Por fim, chamou a atenção para o avanço de uma "pedagogia neoliberal" nas redes sociais, na qual influenciadores e mentores ensinam estratégias de trabalho e inculcam a racionalidade do autogerenciamento subordinado.

Continuidade da programação
As reflexões teóricas apresentadas na primeira sessão reforçam o compromisso do INCT Trabalho em consolidar redes internacionais de pesquisa e subsidiar o debate público sobre a regulação do trabalho e a garantia de direitos sociais frente às transformações tecnológicas.
A programação do I Seminário do Eixo 5 terá continuidade com as próximas sessões temáticas nos dias 26 de agosto e 9 de setembro, sempre das 9h às 13h30.
As inscrições permanecem abertas ao longo do período do evento por meio do formulário oficial: https://forms.gle/GPXPJ3v63sa23K8z5.
