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José Ricardo Ramalho é conferencista magistral no XI Congresso da ALAST

José Ricardo Ramalho é conferencista magistral no XI Congresso da ALAST

O sociólogo José Ricardo Ramalho foi o responsável pela conferência magistral de abertura do XI Congresso Internacional da Asociación Latinoamericana de Estudios del Trabajo (ALAST), realizado de 2 a 4 de setembro de 2026, em Guadalajara, México.

 

Com o título “La reconfiguración de la centralidad del trabajo: nuevos desafíos de interpretación en América Latina”, a conferência abriu a programação acadêmica do encontro e propôs uma reflexão de largo alcance sobre as transformações contemporâneas do trabalho e os desafios que elas colocam para a Sociologia do Trabalho na região.

 

 

A ALAST e os novos cenários do trabalho na América Latina

A ALAST reúne pesquisadores e pesquisadoras dedicados aos estudos do trabalho em diferentes países latino-americanos e constitui um espaço consolidado de intercâmbio, produção acadêmica e debate sobre as transformações do mundo laboral na região.

 

 

Em sua 11ª edição, o Congresso teve como tema geral “Los nuevos escenarios del trabajo en América Latina ante los cambios políticos y económicos de la región”. Realizado em formato híbrido, com sede presencial em Guadalajara, o encontro foi organizado em torno de uma extensa programação de mesas de trabalho, sessões plenárias, conferências e lançamentos de livros. O documento do Congresso destaca, entre os problemas que orientaram as discussões, a reestruturação econômica, os efeitos da crise sanitária, a expansão das plataformas digitais, a precariedade laboral, as novas tecnologias, as mudanças nos mercados de trabalho e os desafios colocados à ação sindical.

A conferência de Ramalho ocupou lugar de destaque na programação: foi realizada logo após a abertura oficial, na manhã do primeiro dia do Congresso.

 

 

José Ricardo Ramalho é professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem uma longa trajetória de pesquisa sobre trabalho, sindicalismo, processos de reestruturação produtiva e transformações do capitalismo. Integra também o Comitê Gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho: estratégias de emancipação (INCT Trabalho).

A centralidade do trabalho em novas bases

Em sua exposição, Ramalho partiu da história do conceito de trabalho e de sua importância nas tradições clássicas da Sociologia. Marx, Durkheim, Weber e W.E.B. Du Bois foram mobilizados para mostrar como, por diferentes caminhos, o trabalho se constituiu em dimensão central para compreender a modernidade, seja por sua relação com a exploração e as classes sociais, seja por seus efeitos sobre integração social, racionalização e formação histórica das desigualdades raciais.

 

 

A conferência acompanhou, em seguida, as mudanças trazidas pela crise do fordismo, pela reestruturação produtiva, pela globalização e pelas tecnologias da informação. O argumento central foi o de que a digitalização não deve ser vista simplesmente como ruptura absoluta com processos anteriores, mas também como aprofundamento de tendências associadas à acumulação flexível: fragmentação das relações de emprego, integração de cadeias globais, automação, monitoramento e novas modalidades de controle.

Ao recuperar debates sobre o possível “fim” ou perda de centralidade do trabalho, Ramalho contrapôs diferentes perspectivas. Destacou, em particular, a contribuição latino-americana de Enrique de la Garza, para quem o trabalho não desapareceu: transformaram-se suas formas de organização, regulação e expressão social. A noção de “trabalho não clássico” permite, nesse sentido, incorporar à análise trabalhadores informais e autônomos, trabalho doméstico, atividades de cuidado, serviços e trabalho mediado por plataformas digitais.

Uma agenda de pesquisa para os próximos anos

A parte final da conferência foi dedicada a uma agenda para a Sociologia do Trabalho latino-americana. Ramalho propôs cinco frentes articuladas de investigação. A primeira envolve digitalização, inteligência artificial, automação e capitalismo de plataforma, com atenção ao controle algorítmico, à vigilância, à intensificação laboral e às mudanças na distribuição do conhecimento produtivo.

A segunda trata da crise ambiental e da transição ecológica, investigando seus efeitos sobre emprego, renda, saúde, territórios e direitos, mas também recolocando a importância da ideia de uma transição justa, com negociação coletiva e participação dos trabalhadores. A terceira volta-se às transformações na regulação do trabalho, especialmente seus efeitos sobre direitos, negociação coletiva e desigualdades.

A quarta frente enfatiza as novas formas de ação coletiva, sobretudo entre trabalhadores dispersos, precarizados e vinculados às plataformas digitais. Já a quinta reafirma a centralidade de temas transversais como gênero, raça, geração, território e família, a serem tratados por perspectivas interseccionais.

 

 

A conclusão sintetizou a principal provocação da conferência: o desafio atual não consiste simplesmente em decidir se o trabalho continua ou não sendo central, mas em compreender como essa centralidade está sendo reconfigurada em um capitalismo atravessado simultaneamente pela digitalização, pela crise ecológica, pela financeirização e por desigualdades persistentes. Para a América Latina, acrescentou Ramalho, essa agenda exige incorporar as heranças do colonialismo e da escravidão, a heterogeneidade estrutural dos mercados de trabalho e a diversidade das trajetórias nacionais de desenvolvimento.