Notícias

INCT-T e ABET promovem debates na Historical Materialism Rio Conference 2026

INCT-T e ABET promovem debates na Historical Materialism Rio Conference 2026

 

As transformações do mundo do trabalho, seus impactos sobre a proteção social e os desafios para a organização coletiva dos trabalhadores estiveram no centro da mesa "Trabalho, proteção social e ação coletiva", promovida pela Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET) em parceria com o INCT-Trabalho durante a Historical Materialism Rio Conference 2026, que ocorreu nos dias  21 a 23 de julho na cidade do Rio de Janeiro.

Coordenada por Adalberto Moreira Cardoso, presidente da ABET e integrante do Comitê Gestor do INCT-Trabalho, a atividade reuniu pesquisadores que apresentaram resultados de investigações desenvolvidas no âmbito do Instituto e da instituição parceira, oferecendo um panorama de temas que hoje ocupam posição estratégica na agenda de pesquisa sobre o trabalho no Brasil e na América Latina.

 

 

A mesa foi aberta por Adriana Marcolino (DIEESE), que apresentou os resultados da pesquisa de opinião pública O Trabalho no Brasil, realizada em parceria entre o DIEESE, a CUT, a Fundação Perseu Abramo e o Vox Populi. Baseado em 3.850 entrevistas, o levantamento mostrou que o trabalho continua sendo um dos principais eixos de organização da vida social brasileira: mais de 70% dos entrevistados o consideram fundamental. Essa centralidade, entretanto, convive com condições marcadas pelo desgaste físico e emocional, pela percepção de baixos salários e pela elevada pressão no ambiente laboral.

A pesquisa também contribui para qualificar o debate sobre o chamado empreendedorismo. Os dados indicam que grande parte do trabalho por conta própria permanece vinculada à necessidade, enquanto o emprego formal segue sendo valorizado por amplos segmentos da população. Entre trabalhadores atualmente na informalidade que já tiveram carteira assinada, a maioria afirmou que retornaria ao emprego formal caso tivesse oportunidade. Outro resultado relevante diz respeito aos sindicatos: embora sejam amplamente reconhecidos como importantes para a defesa dos trabalhadores, mais da metade dos entrevistados declarou desconhecer suas ações, apontando para o desafio de ampliar sua presença e comunicação junto à sociedade. A apresentação concluiu destacando a necessidade de fortalecer um sistema de proteção social capaz de assegurar direitos independentemente da forma de inserção ocupacional.

Na sequência, Maria Aparecida Bridi, pesquisadora do INCT-Trabalho, apresentou resultados do projeto internacional PLATLABORAL, que investiga a plataformização do trabalho em países da América Latina. A pesquisa mostrou que as plataformas digitais não apenas se expandem na região, mas incorporam características estruturais dos mercados de trabalho latino-americanos, como a informalidade, a desigualdade e a fragilidade institucional.

Ao analisar o funcionamento dessas empresas, Bridi destacou que a promessa de autonomia convive com formas sofisticadas de controle algorítmico, que regulam preços, avaliações e tempo de conexão dos trabalhadores. Segundo a pesquisadora, o modelo de negócios das plataformas produz uma verdadeira arquitetura da desproteção social, ao deslocar sistematicamente custos, riscos e responsabilidades para quem trabalha. Ao mesmo tempo, a pesquisa evidencia que os trabalhadores constroem formas inovadoras de resistência, criando redes de solidariedade, espaços de comunicação e mobilizações coletivas, como os "Breques dos Apps", que vêm redefinindo as formas de organização coletiva no trabalho digital.

 

 

Representando outra pesquisa desenvolvida, José Dari Krein apresentou resultados de um levantamento realizado em Campinas com 1.412 respondentes sobre percepções relativas ao trabalho, aos direitos sociais e ao sindicalismo. Os dados revelam ampla valorização dos direitos trabalhistas e das políticas públicas de proteção social. A maioria dos entrevistados defende que os direitos devem ser garantidos em lei e igualmente assegurados a todos os trabalhadores, ao mesmo tempo em que manifesta forte apoio à manutenção do Sistema Único de Saúde como política pública universal.

A pesquisa também mostra que, apesar da baixa taxa de sindicalização, os sindicatos continuam sendo reconhecidos como instituições fundamentais para a defesa dos direitos da classe trabalhadora. Os entrevistados apontam, entretanto, a necessidade de maior presença das entidades nos locais de trabalho e de um diálogo mais próximo com os trabalhadores. Entre os temas que mais mobilizam a opinião pública destacou-se o amplo apoio ao fim da escala 6x1, evidenciando a crescente centralidade das disputas em torno do tempo de trabalho e da qualidade de vida.

Encerrando a mesa, Adalberto Moreira Cardoso fez uma exposição intitulada "Por uma Sociologia Ecológica do Trabalho", resultado das reflexões que vem desenvolvendo em suas pesquisas no âmbito do INCT-Trabalho. Partindo do reconhecimento de que a crise climática já redefine as formas de produzir, trabalhar e viver, o pesquisador defendeu a incorporação da dimensão ecológica às análises sociológicas do trabalho. Sua proposta aponta para a construção de uma agenda de investigação capaz de compreender como a transição ecológica reconfigura processos produtivos, ocupações, desigualdades e sistemas de proteção social, colocando novos desafios tanto para a pesquisa quanto para as políticas públicas e para a ação coletiva dos trabalhadores.

Ao reunir investigações sobre percepções sociais do trabalho, plataformização, sindicalismo e crise climática, a mesa evidenciou a diversidade temática e a atualidade das pesquisas desenvolvidas pelos integrantes do INCT-Trabalho. Mais do que apresentar resultados de estudos, a mesa permitiu reafirmar o papel do Instituto como espaço de produção de conhecimento crítico sobre as transformações contemporâneas do trabalho e de articulação entre pesquisa, debate público e formulação de alternativas para a ampliação dos direitos e da proteção social.