A sessão “Conversa com Autor”, realizada em 8 de outubro, no Auditório da Adunicamp, homenageou a trajetória intelectual de Adalberto Cardoso, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e membro do Comitê Gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT Trabalho). A atividade integrou a programação do 50º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).

Tradicional na programação da ANPOCS, a “Conversa com Autor/a” constitui um espaço de reconhecimento e debate sobre as obras e trajetórias de pesquisadores e pesquisadoras de destaque nas Ciências Sociais brasileiras. Em 2026, Adalberto Cardoso esteve entre os três autores escolhidos para essas sessões especiais, ao lado de Miriam Grossi e Adrian Gurza Lavalle. A homenagem ganha especial importância em uma edição comemorativa do cinquentenário da Associação, ao situar a obra do autor entre as contribuições relevantes para a compreensão das transformações da sociedade brasileira.
A sessão foi apresentada e ancorada por Alexander Couto Englander, bolsista de Pós-Doutorado Júnior do Eixo Temático 6 do INCT Trabalho, dedicado às relações entre trabalho, crise ambiental e transição energética. Em sua intervenção, Alexander reconstituiu os principais momentos da produção de Adalberto Cardoso, chamando atenção para a amplitude temática, a consistência empírica e a articulação entre Sociologia do Trabalho, Sociologia Política e Sociologia Histórica que caracterizam sua obra.
A apresentação começou pelas pesquisas sobre o sindicalismo brasileiro no contexto da redemocratização. Alexander lembrou da pesquisa de mestrado de Adalberto sobre os petroleiros de Paulínia, na qual o autor questionou o modo como o individualismo metodológico explica a ação social e evidenciou a força dos sentimentos de pertencimento, identidade e solidariedade coletiva. Também mencionou a tese de doutorado do autor, que deu origem ao livro A trama da modernidade: pragmatismo sindical e democratização no Brasil (1999), na qual foi feita a análise da tensão entre o sindicalismo combativo da CUT e o chamado “sindicalismo de resultados”, que ganhou espaço no momento da Constituinte construindo uma identidade “anti-CUT”. Pouco depois, no início da década de 2000, Adalberto criticou a acomodação pragmática das lideranças da CUT à estrutura institucional consolidada depois de 1988, sem deixar de destacar que tal postura defensiva ocorria em meio à década neoliberal, que desencadeou uma crise do sindicalismo brasileiro.
Outro momento importante da exposição tratou das pesquisas desenvolvidas nos anos 1990 e 2000 sobre a crise do trabalho, a desindustrialização, a flexibilização das relações laborais e a fragilização do sindicalismo. Alexander ressaltou que Adalberto confrontou empiricamente a tese de que a legislação trabalhista brasileira seria excessivamente rígida e constituiria o principal obstáculo ao crescimento, à produtividade e à competitividade econômica. Obras como Sindicatos, trabalhadores e a coqueluche neoliberal: a era Vargas acabou? (1999), A década neoliberal e a crise dos sindicatos no Brasil (2003) e As normas e os fatos: desenho e efetividade das instituições de regulação de trabalho no Brasil (2007) tornaram-se referências nesse debate.
A apresentação abordou ainda o livro A construção da sociedade do trabalho no Brasil (2010), no qual Adalberto mobiliza uma perspectiva histórica para interpretar a persistência secular das desigualdades. Alexander destacou, nesse percurso, os estudos posteriores sobre juventude, informalidade, classes médias, bolsonarismo e negociação coletiva. E concluiu que, nesse movimento contínuo de adensamento intelectual, a obra de Adalberto Cardoso proporciona um mapeamento cognitivo do mundo do trabalho no Brasil. A composição desse conjunto revela uma sociologia política do trabalho atenta às relações entre mercado de trabalho, instituições, desigualdades, identidades de classe e disputas políticas — que ganhou nova camada de complexidade em seus trabalhos mais recentes, por meio da mobilização das categorias de “ética burguesa do trabalho” (individualista e meritocrática) e “ética do trabalho assalariado” (coletivamente organizado, fundamentada na solidariedade de classe). A categoria de classe social permanece central porque, apesar das promessas de uma sociedade pós-industrial, o emprego assalariado — ou suas formas dissimuladas sob a linguagem do empreendedorismo — continua delimitando, desigualmente, o horizonte das oportunidades de vida da maioria da população.

Em sua fala, Adalberto Cardoso apresentou uma agenda intelectual em desenvolvimento, sintetizada na proposta de uma “Sociologia Ecológica do Trabalho”. Seu argumento central é a de que a crise climática não deve ser tratada apenas como uma variável externa que afeta determinados empregos, setores ou ocupações. Calor extremo, secas, incêndios, enchentes, poluição e colapso das infraestruturas penetram diretamente os processos de trabalho e as condições cotidianas de reprodução da força de trabalho.
Adalberto propôs, assim, compreender a crise climática contemporânea como uma “crise ecológica do trabalho”. Essa crise ocorre quando perturbações ambientais associadas à dinâmica da acumulação capitalista afetam simultaneamente a capacidade de trabalhar e as condições materiais e sociais necessárias à reprodução das capacidades laborais. Seus efeitos incluem a redução ou reorganização da capacidade física de trabalho, a elevação dos custos familiares com água, energia, alimentação, transporte, moradia e saúde e a redistribuição desses custos entre empresas, Estado, famílias e comunidades.
A desigualdade ocupa lugar decisivo nessa formulação. Um mesmo evento climático produz consequências distintas conforme o regime de emprego, a renda, o gênero, a raça, o território e o acesso a direitos. Trabalhadores formais podem contar, ainda que parcialmente, com pausas, fiscalização, equipamentos e compensações. Para trabalhadores informais, autônomos ou remunerados por tarefa, interromper uma atividade perigosa pode representar a perda da renda indispensável à sobrevivência.
Três mediações foram destacadas por Adalberto: corpo, infraestrutura e cuidado. O corpo constitui o primeiro lugar em que a instabilidade climática se converte em fadiga, doença, acidente ou incapacidade. As infraestruturas de água, energia, transporte, saneamento, saúde e comunicação condicionam tanto o exercício do trabalho quanto a reprodução da vida. O cuidado, predominantemente realizado pelas mulheres, absorve parte considerável dos custos das catástrofes, das doenças e da interrupção dos serviços públicos.
O autor ilustrou sua proposta com situações brasileiras: a exposição de motoristas e entregadores de plataformas ao calor e às tempestades; os efeitos das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul sobre empregos, moradias, deslocamentos e redes de cuidado; e as consequências das secas e dos incêndios na Amazônia e no Pantanal para povos indígenas, ribeirinhos, pescadores e pequenos produtores.
Ao incorporar as resistências e as formas de organização coletiva à própria análise da crise, Adalberto mostrou que trabalhadores e comunidades não são apenas vítimas dos danos ambientais. Eles sustentam, reparam e regeneram as condições da vida, podendo transformar essa posição em ação coletiva. Justiça climática, ecologismo dos pobres e transição justa aparecem, desse modo, como formas de disputar quem deverá arcar com os custos da transformação ecológica. A homenagem promovida pela ANPOCS celebrou, portanto, não apenas uma trajetória intelectual consolidada, mas também a abertura de uma agenda inovadora para a Sociologia do Trabalho.

Ao incorporar as resistências e as formas de organização coletiva à análise da crise, Adalberto mostrou que trabalhadores e comunidades não são apenas vítimas dos danos ambientais. São também sujeitos que sustentam, reparam e regeneram cotidianamente as condições da vida e que podem transformar essa posição em mobilização e ação coletiva. Justiça climática, ecologismo dos pobres e transição justa aparecem, desse modo, como campos de disputa em torno de quem deverá arcar com os custos sociais e ambientais da transformação ecológica e de quem participará da definição de seus rumos.
A reflexão apresentada na sessão dialoga diretamente com uma das frentes centrais do INCT Trabalho. A crise climática e a transição energética, analisadas pelo prisma de seus condicionamentos e de suas consequências para o trabalho, constituem o núcleo do Eixo Temático 6 do Instituto. Ao articular processo de trabalho, reprodução social, desigualdades, condições ecológicas, ação coletiva e políticas de transição, essa perspectiva ajuda a construir um programa de investigação capaz de compreender como a crise ambiental reorganiza o trabalho, redistribui riscos e custos entre diferentes grupos sociais e produz novas disputas por direitos, proteção social e justiça climática.
A homenagem promovida pela ANPOCS celebrou, portanto, não apenas uma trajetória intelectual consolidada e decisiva para a Sociologia do Trabalho brasileira. Suas reflexões constituem um pilar fundamental do Eixo 6 e do esforço coletivo do INCT Trabalho para construir uma perspectiva interdisciplinar e socialmente comprometida sobre as relações entre trabalho, crise climática, transição energética, inclusão, equidade e sustentabilidade.
