O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) realizou, de 22 a 24 de setembro, em Brasília, o Seminário INCT 2026. O encontro reuniu coordenadores e representantes dos 243 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia atualmente em atividade, além de dirigentes do CNPq, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), da Capes, do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e de outras instituições parceiras. Ao longo de três dias, foram compartilhadas orientações de gestão, resultados de avaliações e experiências de institutos de diferentes áreas do conhecimento.

Criado formalmente em 2008, como desdobramento do Programa Institutos do Milênio, o Programa INCT tornou-se uma das principais iniciativas de organização da pesquisa científica brasileira em redes cooperativas. Os institutos articulam pesquisadores, universidades, centros de pesquisa e parceiros nacionais e internacionais em torno de temas estratégicos. Suas atividades abrangem produção científica, formação de recursos humanos, internacionalização, difusão do conhecimento e transferência de resultados para a sociedade, o setor produtivo e o poder público.

Os INCTs não se limitam, portanto, a projetos de pesquisa de grande porte. São estruturas interinstitucionais, interdisciplinares e, em muitos casos, transdisciplinares, orientadas por objetivos e metas relacionados a problemas nacionais. Em cinco chamadas públicas, o programa apoiou 470 projetos, com aportes acumulados superiores a R$ 3,8 bilhões provenientes do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e de instituições parceiras. Os 243 institutos vigentes resultam principalmente das chamadas de 2022, com 100 projetos, e de 2024, que selecionou 143 institutos novos ou renovados.
Para o CNPq, o programa representa uma das experiências mais valiosas e estratégicas da ciência brasileira. Seu alcance depende da articulação entre diferentes fontes e instituições de fomento, com destaque para o FNDCT, a Capes, o Ministério da Saúde, as fundações estaduais de amparo à pesquisa e a Finep. Essa composição permite conectar excelência científica, formação de pesquisadores, infraestrutura, cooperação federativa e agendas de desenvolvimento nacional.

A programação do seminário foi organizada em três grandes blocos. O primeiro dia concentrou-se na gestão das chamadas públicas e do fomento. Foram abordados procedimentos financeiros, bolsas no país e no exterior, importação de equipamentos, prestação de contas e canais de comunicação com a equipe responsável pelo programa. As apresentações esclareceram dúvidas práticas e reforçaram a necessidade de documentação adequada, planejamento das despesas, atualização das equipes nas plataformas do CNPq e acompanhamento sistemático da execução dos projetos.
Ainda no primeiro dia, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) apresentou a avaliação de 104 INCTs vinculados às chamadas de 2010 e 2014. O estudo mobilizou aproximadamente 14 mil currículos da Plataforma Lattes, relatórios institucionais, formulários respondidos pelos coordenadores e 27 avaliadores externos. Sua metodologia foi qualitativa, multidimensional e não classificatória: em vez de produzir um ranking, buscou compreender trajetórias, capacidades construídas, dificuldades e impactos científicos, tecnológicos, sociais, institucionais e territoriais.

A avaliação mostrou que os INCTs constituem redes científicas maduras, produtivas e fortemente integradas. Laboratórios, observatórios, bases de dados, coleções, plataformas tecnológicas e serviços especializados formam ativos que permanecem além de cada ciclo de financiamento. Por isso, uma das recomendações centrais foi reconhecer o programa como política de Estado, com avaliação contínua, governança adequada e maior previsibilidade financeira. A descontinuidade pode fragmentar redes, dispersar competências e comprometer infraestruturas construídas com investimentos públicos de longo prazo.
Outro ponto destacado foi que o Estado brasileiro ainda utiliza menos do que poderia a inteligência produzida pelos institutos. A aproximação com ministérios, órgãos públicos, empresas e organizações sociais ocorre, mas de modo desigual e muitas vezes por demandas isoladas. O desafio é criar canais permanentes para que dados, diagnósticos e soluções desenvolvidos pelos INCTs contribuam de forma sistemática para a formulação, implementação e avaliação de políticas públicas. Comunicação e legitimidade social também foram apresentadas como dimensões estratégicas: é necessário dar visibilidade não apenas à produção acadêmica, mas aos efeitos concretos da pesquisa.
No segundo dia, o CNPq apresentou o monitoramento parcial dos 100 institutos da chamada de 2022. A análise considerou execução de metas e cronogramas, formação de recursos humanos, difusão do conhecimento, articulação das redes e internacionalização. As ciências humanas, sociais aplicadas e a educação se destacaram pela divulgação científica, pela produção de livros, pelo diálogo direto com a sociedade e pelas contribuições às políticas públicas. A discussão ressaltou que impacto não pode ser medido apenas por artigos: deve considerar o estágio de desenvolvimento de cada instituto e a capacidade de produzir efeitos práticos.

Nos dois últimos dias, institutos da chamada de 2022 das ciências humanas e sociais, engenharias, tecnologias da informação, ciências biológicas, saúde, ciências exatas e da Terra, meio ambiente e ciências agrárias apresentaram suas experiências. Os relatos evidenciaram a diversidade do programa: estudos sobre futebol e planejamento regional conviveram com pesquisas em inteligência artificial, redes de comunicação, doenças raras, segurança hídrica, biodiversidade, vigilância genômica e agricultura. Apesar das diferenças temáticas, reapareceram desafios comuns, como integração interna, sustentabilidade das equipes, internacionalização, compartilhamento de infraestrutura, comunicação pública e transformação dos resultados em benefícios sociais.
O INCT Trabalho, Inclusão e Equidade participou do seminário por meio de seu coordenador, Roberto Véras de Oliveira. A presença permitiu acompanhar diretamente as orientações do CNPq, os critérios de monitoramento e o debate sobre o futuro do programa, assim como estabelecer contatos com os demais coordenadores, especialmente os que atuam em temáticas afins. Para o INCT Trabalho, as discussões reforçam a importância de registrar adequadamente projetos, publicações, orientações, bolsas, atividades em rede e impactos em políticas públicas; ampliar a integração entre seus eixos; dar visibilidade à produção com a marca institucional; e apresentar de forma consistente sua contribuição para a compreensão das transformações do trabalho, das desigualdades e das políticas de inclusão e equidade.

O Seminário INCT 2026 evidenciou, sobretudo, a dimensão do desafio de construir uma política nacional de ciência, tecnologia e inovação. Um país continental, desigual e inserido de forma dependente na economia mundial precisa produzir conhecimento para enfrentar problemas sociais, ambientais, econômicos, sanitários e tecnológicos a partir de uma perspectiva soberana. Nesse cenário, os INCTs cumprem papel estratégico: articulam competências dispersas, formam novas gerações de pesquisadores, preservam capacidades científicas, conectam territórios e oferecem inteligência para decisões públicas. Consolidá-los como política de Estado significa transformar redes de excelência em capacidade nacional permanente para compreender os problemas do país e construir respostas à altura de sua complexidade.
